Rumo ao Norte Argentino

Rumo ao Norte Argentino

Saímos de Buenos Aires entristecidos.  Em algumas oportunidades nessa viagem nos lamentamos ao ter que deixar para atrás lugares que aprendemos a gostar. Seja pelas pessoas que conhecemos, pela história do local ou pelos seus atrativos, percebemos que a partida sempre é um momento de certa melancolia e tristeza.

Ao mesmo tempo, os momentos tristes da partida vem sendo sucedidos por novas, empolgantes e prazerosas descobertas.  E, definitivamente, a partida de Buenos Aires com destino ao norte argentino foi assim. Não sabíamos o que esperar, mas esse trecho da viagem nos reservou momentos deliciosos, inesquecíveis e de muita riqueza de aprendizado sobre a cultura e a história dessa região.

Nosso trajeto rumo ao norte argentino iniciou-se pela cidade de Rosário, na vizinha província de Santa Fé, a cerca de 3horas de viagem de Buenos Aires. Dividindo com Córdoba a segunda posição em termos de importância econômica para Argentina, Rosário é uma cidade que aparentemente soube equilibrar bem o progresso com qualidade de vida.  Possui uma infraestrutura boa e oferece aos seus cidadãos uma rotina com bastante tranquilidade. 

Além de uma orla bem aproveitada com atrações, parques e ciclovias, as ruas e calçadas de Rosário são muito bem conservadas. A cidade possui, ainda, uma grande quantidade de construções históricas do fim do século retrasado e um simples caminhar pela cidade admirando todas essas construções é, sem dúvida, um programa bastante agradável.

Tivemos a oportunidade de conhecer Rosário razoavelmente bem apesar dos pouco tempo de estada. O Leo e a Carol, junto com suas filhas Beatriz e Julia, gentilmente nos hospedaram em sua casa e nos deram várias dicas sobre a cidade. Amigo do Eduardo dos tempos de escola, o Leo está morando no exterior faz alguns anos e poder visitá-lo em Rosário e conhecer sua família foi muito agradável.

Apesar de ser meio de semana, saímos com eles durante as noites para sermos apresentados a alguns lugares, tomarmos umas belas cervejas artesanais e batermos bons papos.  Eles dividiram conosco um pouco das suas percepções sobre costumes e características da cidade e sobre a vida na Argentina em comparação com o Brasil. Também nos deram valiosas dicas sobre história, culinária e locais a se visitar na região e em alguns de nossos destinos futuros na Argentina.  

Saímos de Rosário numa manhã ensolarada em direção à serra da vizinha província de Córdoba. Pela Ruta 9 percorremos cerca de 480km até chegarmos em Alta Gracia, onde pernoitamos num camping antes de subirmos a serra.  Logo pela manhã do dia seguinte fomos visitar o principal atrativo da cidade; a “Casa del Chê”.

Essa casa, onde Ernesto Guevara nasceu e viveu sua infância, é hoje um museu com importantes itens que contam a vida de uma das mais simbólicas figuras da américa latina.  Foi muitíssimo interessante conhecer um pouco mais da história pessoal e do processo de transformação do pequeno “Ernestito” no internacionalmente famoso guerrilheiro “Chê Guevara”.

Uma das partes que mais nos atraiu no museu foi a seção das expedições que ele fez pelo continente sul americano ainda jovem em busca de conhecimento cultural.  Como somos fãs do filme “Diários de Motocicleta” foi muito interessante ver ao vivo a “La Poderosa” exposta no museu e conhecer com um pouco mais de detalhes os trajetos, as fotos e os relatos produzidos durante essa fase de sua vida.

Terminada a visita ao museu subimos os cerca de 70km de serra, pela Ruta Provincial n.5, até o primeiro de nossos dois destinos, a Villa General Belgrano.  Só a estrada em si já valeria o passeio. Bastante sinuosa, o caminho vai passando por diversos povoados e seja pelas belas casas construídas ao longo da estrada, seja pelas encostas com sua vegetação característica ou pelo enorme lago formado por uma barragem , os quilômetros percorridos foram um desfile de belíssimas paisagens.

Cada curva nos proporcionava uma vista maravilhosa da serra e elas foram se sucedendo até chegarmos a essa charmosa vila de origem alemã, cujo nome homenageia um dos heróis da independência argentina.

A cidade gira em torno dos aspectos culturais alemães, todos muito bem ressaltados pelos imigrantes que povoaram a cidade nos fins do século XIX e começo do XX. A arquitetura dos prédios, o nome das ruas, o comércio, os restaurantes com comidas típicas, as diversas cervejas artesanais produzidas na região, os doces e embutidos, enfim, absolutamente tudo relembra a Alemanha e, não à toa, é lá que ocorre a versão argentina da Oktoberfest.

Ficamos o dia e a noite curtindo o charme e as delícias gastronômicas daquela colônia germânica.  À noite, o frio foi bastante intenso e além dos casacos e mantas tivemos que nos enfiar no saco de dormir para nos aquecer dentro do Roots.

No dia seguinte, depois de um café da manhã debaixo de uma serração típica de serra, partimos para a vizinha “La Cumbrecita”.  Outra cidadezinha serrana de origem alemã, La Cumbrecita é ainda menor e fica ainda mais no alto da serra, encravada no topo de uma das montanhas da serra.

Deixamos o Roots no estacionamento que fica na entrada da cidade e fomos a pé conhecer a cidade.  Percorremos um caminho até um lago que fica escondido entre pinheiros na encosta da montanha e, apesar do frio, chegando lá o sol resolveu dar as caras.  Sentamos à beira do lago e aproveitamos para deixar que o sol nos aquecesse antes de seguirmos para a trilha que faríamos na sequência.

O caminho até a cachoeira não foi difícil e levamos apenas uns 30minutos caminhando, subindo por pedras numa trilha em meio à mata. Ficamos meio decepcionados pois esperávamos que fosse uma trilha mais desafiadora, mas mesmo assim valeu a pena ter ido até lá pela vista.  Na volta da trilha paramos em um restaurante para almoçarmos enquanto decidíamos se dormiríamos lá ou desceríamos a serra para seguir nossa viagem.

Ficamos com bastante medo do frio.  Nossa opção de pernoite seria o estacionamento da cidade, que era bastante aberto e não havia muita estrutura para nos abrigar, principalmente em caso de vento.  Já havíamos passado bastante frio em Villa General Belgrano e certamente em La Cumbrecita a temperatura seria bem mais baixa.

Decidimos então não pernoitar e seguir em direção a Córdoba, onde planejávamos passar o fim de semana.  Chegamos lá à tardinha e ficamos cerca de uma hora rodando a cidade para encontrar um local interessante para ficarmos.  Acho que rodamos boa parte da cidade mas só o que vimos foi muito trânsito, muita gente na rua e muita obra.

A idéia inicial era passar o fim de semana em Córdoba para aproveitarmos a tão conhecida “movida” local, mas depois da paz e tranquilidade de Rosário, Villa General Belgrano e La Cumbrecita não estávamos mais a fim de tanto agito.  Dormimos, então, numa pequena cidade chamada Jesus Maria, poucos quilômetros ao norte de Córdoba, e no dia seguinte acordamos cedo e enfrentamos mais de 600km pela Ruta 9 até chegarmos a San Miguel de Túcuman.

O plano seria parar em Santiago del Estero, uns 200km antes, e conhecer essa que foi a primeira cidade fundada pelos espanhóis na Argentina mas, após atravessarmos uma reta infinita de quase 400km em meio à natureza pura, esperávamos chegar em um lugar agradável e nos estabelecer. Só que foi exatamente o oposto do que encontramos por lá. A cidade era muito mal cuidada e decidimos então seguir viagem até San Miguel de Túcuman.

Apesar de bem melhor que Santiago del Estero, San Miguel de Túcuman também não nos empolgou muito. Demos uma volta pelo centro da cidade, fomos num supermercado para nos reabastecer e decidimos dormir num posto YPF na beira da estrada, já na saída da cidade.  

Aparentemente não estávamos numa fase muito urbana e, portanto, todo lugar que fosse razoavelmente movimentado queríamos uma certa distância.  Estávamos em busca de paz e tranquilidade, querendo encontrar logo algum lugar calmo e simples para nos estabelecer por uns dias.  Queríamos dar um tempo de cidades e por isso já cedo na manhã seguinte partimos de San Miguel de Túcuman em direção ao interior da província. 

E acertamos em cheio. Nossa viagem começou a mudar de característica a partir de então.  

Poucos quilômetros à frente deixamos a Ruta 9 para entrar na Ruta Provincial 307, o equivalente a uma rodovia estadual, que atravessa os Vales Calchaquies Tucumanos e termina na famosa Ruta 40.

Essa trecho da viagem nos apresentou uma Argentina mais pitoresca e mais rústica.  O país passou a se parecer mais com américa latina, com menos influência europeia e mais características indígenas e originárias; uma Argentina cheia de atrativos que até então não havíamos vivenciado em nossa viagem.

Para começar, a estrada pelos Vales Calchaquies era de tirar o fôlego. Começamos a percorrê-la numa planície a cerca de uns 400 metros de altitude, passando por pequenos vilarejos de origem indígena cujos nomes já começavam a ser de difícil pronúncia. Consoantes se intercalavam com poucas vogais e nossa língua se enrolava toda vez que tentávamos pronunciar os nomes descritos nas placas.

Começamos então a subir acentuadamente. Passados uns quilômetros, resolvemos parar numa área à beira da estrada para tomarmos nosso café da manhã, contemplando a beleza da mata, das pedras e dos riachos que preenchiam aquele quadro que nem mesmo o mais talentoso dos artistas conseguiria reproduzir com tanta perfeição.  A natureza era praticamente virgem e os sons das aves, da água correndo em meio a mata e do vento batendo nas folhas eram a trilha sonora perfeita para nosso café da manhã. 

A estrada, apesar de asfaltada, ficava escondida entre as árvores e se mostrava apenas quando chegava ao extremo de uma montanha para contorná-la em curvas muitas vezes de 180 graus e voltar a se embrenhar em meio ao verde até que, novamente, ressurgisse  contornando a montanha seguinte.

Em diversos momentos ela se estreitava e permitia a passagem de um único veículo por vez e, obrigatoriamente, tivemos que percorrê-la de forma bem vagarosa.  Além de mais seguro, isso foi um enorme prazer pois à velocidade de 40km/h pudemos aproveitar cada metro e cada curva dessa magnífica obra de engenharia totalmente integrada à natureza, que atravessa as áreas de reservas “Los Sosa” e “La Angostura” praticamente sem impacto significativo algum.

Depois da subida por suas curvas acentuadas e entalhadas pela montanha chegamos a Tafi del Valle.  Uma visão arrebatadora!!!

As reservas de denso verde que recobria as montanhas ficaram para atrás e alcançávamos 2.100 metros de altitude numa planície árida, de vegetação seca e quase inexistente.  A natureza agora se apresentava de uma forma completamente oposta, num dominante tom pastel proveniente da terra árida que recobria a parte alta aquelas montanhas.  Somente o límpido e resplandecente azul do céu sem nuvens se destacava em meio àquela paisagem desértica.

Pequenas e típicas construções surgiam à beira da estrada.  Construídas para climas desérticos, as casas eram retangulares, com pé direito alto, teto reto e estrutura de madeira recobertas com material certamente extraído do próprio local, como barro, adobe, terra e tijolos artesanais.

Mais uns poucos quilômetros de estrada e após uma longa curva nos deparamos com um enorme lago no meio da planície.  Era de um azul tão impressionante que parecia refletir sem falhas aquele céu infinito sobre as montanhas tucumanas.  Aquele lago quebrou a monotonia da paisagem e enchia de vida e cor aquela surpreendente planície desértica escondida no alto da montanha.

Embasbacados seguíamos pela estrada, contornando e admirando o lago, até que não resistimos e paramos para tirar fotos.  Do lado oposto percebemos uma vila relativamente grande, espremida entre o lago e a encosta da montanha que o circunda. Aparentemente aquela vila tem bastante estrutura para quem quiser passar ali uns dias pois vimos muitas placas oferecendo hospedagem, passeios de barco e atividades ligada à pesca. 

Ficamos até tentados a parar mais tempo e aproveitar o local mas resolvemos seguir adiante para chegar ainda naquele dia a Cafayate, já na província de Salta.

Quando o lago começou a se apequenar em nosso retrovisor vimos adiante a estrada se transformar em uma íngreme subida com curvas que rasgavam a montanha em sucessivos e intermináveis “S”.  Já estávamos a uma altitude elevada e não acreditávamos que aquela estrada nos levaria ainda mais para o alto.

Sentíamos que estávamos indo em direção ao céu de tanto subirmos.  Nossa concentração na estrada só foi quebrada pelo estouro de um pacote de batatas fritas que havíamos comprado no posto de gasolina ainda lá embaixo em San Miguel de Túcuman.  Um susto rápido mas o fenômeno nos chamou atenção do quanto havíamos subido em tão pouco tempo.

Quando a subida terminou, a cerca de 3.100 metros de altitude na região conhecida como El Infernilo, nossa impressão era que estávamos no topo do mundo.  Víamos ao fundo uma enorme e interminável cadeia de montanhas — alguns dos picos inclusive recobertos com neve — e entre nós um enorme vale que se estendia sobre nossos pés, parecendo o fundo de um enorme cânion.

A estrada começava então a descer e caminhos estreitos entre penhascos começavam a se formar.  Cactos imensos começaram a surgir ao longo do caminho. Passamos por um observatório astronômico, depois por algumas casas indígenas até que chegamos a Amaicha del Valle, a cidade no fundo do vale que havíamos vislumbrado lá do alto.

A Ruta Provincial 307 chegava ao seu fim ao encontrar-se com a Ruta 40, um dos ícones da argentina, onde ruínas de povos pré-Colombianos como os Quilmes ainda estão relativamente preservadas e podem ser visitadas na região.

Mais alguns minutos e atravessaríamos a fronteira com Salta e, politica e geograficamente, os vales passavam a se chamar Calchaquies Salteños.  Nossa chegada a Cafayate estava bem próxima e observando as montanhas vermelhas, os vales repletos de vinhas e as bodegas com suas construções características, nos demos conta que havíamos chegado ao coração da região norte argentina.

Depois de 2.163km percorridos ao longo de 6 dias desde que deixamos Buenos Aires, sentíamos uma deliciosa energia no ar. Parecia que uma nova temporada de descobertas em nossa viagem estava começando e, de fato, os prazeres que vivemos visitando lugares ímpares nessa parte até então desconhecida para nós confirmaram o quão acertada foi nossa decisão de mudar os planos de viagem.

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