Colômbia: selva, montanhas, deserto e praia (parte 1)

Colômbia: selva, montanhas, deserto e praia (parte 1)

Faziam exatamente quinze dias que o ano de 2020 havia chegado quando entramos na Colômbia, nosso oitavo país nessa fase da viagem pela América do Sul.  

Mesmo após passarmos três meses maravilhosos no Equador, estávamos ávidos para explorá-la. Nossos anfitriões em Rosário, um casal norte americano que conhecemos em Caraz e uma família de Bogotá que encontramos no Equador, entre outros, nos haviam relatado maravilhas sobre o país e tínhamos expectativas bastante altas.   A costa caribenha, o pacífico selvagem, as delícias do “eixo cafeteiro”, as montanhas nevadas, os parques arqueológicos, os desertos e as selvas… tudo isso nos dava excelentes indicativos de que teríamos uma inesquecível passagem ao longo do território colombiano.

Cruzamos a fronteira com o Equador pela ponte sobre o rio San Miguel, na cidade de General Farfán, em meio à floresta amazônica.  A imigração e a burocracia com a aduana foram bem tranquilas e em pouquíssimo tempo já estávamos deslizando sobre as estradas colombianas.  

Aliás, um rápido parênteses antes de prosseguir. “Deslizar” não é bem o termo mais apropriado para ser usado quando se faz referência à malha rodoviária do país. A qualidade das estradas colombianas é, em geral, muito ruim e o custo dos pedágios totalmente desproporcional ao nível de serviço prestado.  Talvez seja mais adequado substituir a expressão anterior por “desviar sobre as estradas colombianas”.

Começamos nossa exploração pela parte sul do país, atravessando um pedaço marginal da selva e visitando algumas das principais atrações de Putumayo, Cauca e Huila, rodando quase dois mil quilômetros. A natureza nessa região sul do país ainda é bastante preservada e o povo, muito amistoso, sabe e gosta de receber as pessoas.

Após uma estadia de alguns dias em Mocoa, num camping às margens da floresta amazônica, partimos em direção a uma parte do país que concentra muitas relíquias de antigas civilizações desaparecidas. Os sítios arqueológicos de San Augustin e do Parque Nacional de Tierradentro, na cidade de Inzá, ficam em meio a lindas montanhas e extensos vales e, além de todo o conhecimento histórico que absorvemos nessas visitas exploratórias, ficamos muito conectados com a natureza exuberante desses locais.

Já em Popayan, a cidade branca que é patrimônio do país e do mundo, mergulhamos no mundo da história mais recente do país. Em um walking-tour pelos pontos mais interessantes da cidade, fomos apresentados a uma infinidade de curiosidades e percebemos que, além de ser a origem de 13 ex-presidentes colombianos, Popayan deu uma enorme contribuição a Colômbia com inúmeros  heróis e sábios que conduziram os processos de independência e de consolidação da recém-criada república da Nova Granada.

De lá fomos até Silvia, um pequeno povoado que fica no alto das montanhas e onde tivemos contato com um dos povos que habita o continente desde eras pré-colombianas. A cultura indígena dos guambianos é extremamente bem preservada é muito fácil percebê-la pelas ruas do povoado, principalmente pelo uso do idioma original e de suas roupas multi-coloridas.  Lá em Silvia fomos recebidos pelo Teo, um grande colombiano — literalmente grande — com um coração ainda maior e uma família cuja simpatia e educação nos impressionou desde o primeiro momento.

Outro exemplo de gentileza e hospitalidade impressionantes foi a Ganeth e o Ivan, no deserto de Tatacoa. Mesmo com o camping em processo de fechamento e sendo os únicos e últimos hóspedes do local, eles nos receberam e atenderam com uma enorme amabilidade e interesse.  Nossa estadia lá foi deliciosa não só por conta de nossos anfitriões, mas também porque tivemos uma experiência incrível ao ficarmos completamente isolados por mais de uma semana, apreciando o absoluto silêncio do deserto e os infinitos oceanos de estrelas que se apresentavam no céu durante as suas noites frescas.

Foram muitas as riquezas naturais e culturais que descobrimos nessa parte meridional do país. Infelizmente, até bem pouco tempo atrás, ela ficou dominada por forças revolucionárias e para-militares e, por conta disto, a questão da insegurança e do medo ainda é um traço muito marcante e bem vivo na população.  Outra consequência negativa dessas circunstâncias é que isto impediu que muitos colombianos viajassem livremente pelo país e conhecessem melhor esta região, fazendo com que a infraestrutura para viajantes seja muito precária e com poucas opções. 

Foi possível perceber, entretanto, que o recente processo de paz implantado, apesar de um pouco conturbado e controverso, gerou uma incipiente atividade turística e há no horizonte alguma perspectiva de melhora no futuro.  A se confirmar essa hipótese, o desafio passará a ser o de manter o equilíbrio entre o progresso e a sustentabilidade, para evitar a descaracterização da rusticidade da região, que é muito valiosa e provavelmente seu maior tesouro.

Para nós, a passagem por essa parte “menos desenvolvida” da Colômbia foi um belíssimo aprendizado.  Percebemos nitidamente como os aspectos históricos, culturais e humanos da região foram influenciados por suas peculiaridades geográficas, inclusive sua própria preservação já que elas impediram que os espanhóis conquistadores avançassem por essa parte do país. E não só isso mas, pelo menos até agora, apesar de um forte processo global de padronização de comportamento, essa parte do território colombiano mantém-se fiel as suas características originárias e geram uma cultura antropológica interessantíssima.

Deixamos a região sul pelo deserto de Tatacoa e após percorremos cerca de 400km por estradas cheias de pedágios até chegarmos em Santa Fé de Bogotá, a capital do país. Passamos do forte calor da selva e do deserto para uma zona de clima bem mais ameno, a cerca de 2.500m de altitude. 

O primeiro fim de semana na capital foi passado na companhia do extraordinário grupo de Land Rover local.  Além de nos receber e nos dar todo apoio possível, ofereceram um churrasco de boas-vindas na casa de um deles, em La Calera, na parte oriental de Bogotá.  Esse fim de semana inicial foi muito especial pois, apesar do frio dessa zona montanhosa da capital, sentimos o calor humano de pessoas especiais que, mesmo sem nos conhecer até então, se desdobraram para que tivéssemos a melhor impressão possível da cidade, do país e de seu povo.

Em novembro de 2018 alguns membros desse grupo atravessaram boa parte do continente para participarem do encontro Land Rover em Garopaba, no sul do Brasil. Contaram-nos que foram muito bem recebidos e acolhidos por brasileiros lá e agora pudemos comprovar, pessoalmente, que o famoso espírito coletivo e colaborador não é uma exclusividade dos “landeiros” de terras tupiniquins, mas também dos santafereños.

Esse é um belíssimo exemplo de como, ao invés da indiferença, as pessoas deveriam tratar os seus semelhantes e vizinhos.  A generosidade e a hospitalidade de pessoas frutificam e multiplicam seus efeitos, gerando um ambiente muito mais agradável e acolhedor entre pessoas e povos.  Uma vez mais, a experiência da viagem nos concedeu um aprendizado riquíssimo, confirmando qual o caminho correto e os valores que devemos perseguir em nossas vidas.

Além dos nossos novos colegas “landeiros” de Bogotá, tivemos também a companhia dos amigos brasileiros Mileide e Rafael, do projeto Land Roots, nesses primeiros dias. Havíamos nos despedido deles na costa equatoriana fazia quase dois meses e, coincidentemente, eles estavam na capital colombiana nesse mesmo fim de semana em que chegamos.

Antes de partirem para o interior do país, aproveitamos sua companhia e fomos juntos conhecer o centro histórico da capital. Com o tempo bem ensolarado, as ruas da Candelária e do Choro de Quevedo estavam repletas de gente.  Bogotá, especialmente em seu centro, possui muitos espaços dedicados à cultura e fizemos uma verdadeira maratona passeando pela suas ruas e vielas no centro histórico, indo aos museus de Botero, do Ouro e da antiga Casa da Moeda, apreciando os imponentes e bem preservados monumentos, prédios, igrejas e palácios antigos da cidade.  Ainda arrumamos tempo para comer uma deliciosa “bandeja de paisa”, um prato delicioso e típico da culinária colombiana.

Tínhamos planos de fazer bastante coisa na capital e, por isso, acabamos decidindo alugar um apartamento para ficarmos mais confortáveis e facilitar nossa logística por lá. Apesar de bem simples, o apartamento foi um belíssimo investimento, pois ficava num ponto estratégico de Bogotá e facilitava muito nosso deslocamento pela cidade, que conhecemos quase que em toda sua extensão.

Com o começo da semana e a partida dos nossos amigos, focamos nossas energias em tudo aquilo que tínhamos que fazer em Bogotá, aproveitando os benefícios que uma cidade grande oferece.  Apesar de termos feito em Quito uma revisão geral no Roots, por conta do custo dolarizado de produtos e serviços no Equador, deixamos para fazer em Bogotá alguns outros ajustes no carro. Basicamente precisávamos complementar a manutenção do Roots com a troca da correia dentada, da bateria estacionária e do gás do ar-condicionado, assim como comprar placas de energia solar para um upgrade no carro, ganhando mais autonomia “offgrid”. 

Ao longo de apenas uma semana conseguimos fazer tudo graças ao apoio dos incríveis membros do grupo Land Rover de Bogotá, Carlo, Alejandro e Sebastian. Com os ajustes finalizados e o Roots apto para percorrer outros 50mil quilômetros com total segurança, pudemos relaxar e gozar dos prazeres que a deliciosa capital colombiana nos ofereceu.

A capital nos encantou desde o primeiro até o último minuto. Como qualquer outra capital sul americana ou de país em desenvolvimento, ela apresenta seus gritantes contrastes humanos e demonstra que, tal como Buenos Aires, Lima e Quito (La Paz e Montevideo são casos à parte), há ainda muito a aprimorar em termos de desenvolvimento social, mas, apesar disso, ela é uma cidade muito viva e alegre, repleta de incríveis atrações.

Música, gastronomia, cultura, esportes, história, parques, feiras, exposições etc…. a capital colombiana possui um leque enorme de opções para quem gosta de aproveitar a vida. Tirando um dia de chuva todos os demais foram ensolarados e com temperaturas muito agradáveis. De dia o calor do sol nos permitia ficar apenas de calça e camiseta, mas à tarde e à noite o casaco foi peça fundamental na nossa indumentária. Mesmo em estações mais quentes, o clima santafereño pode ser bem frio devido à altitude.

Nós percorremos uma outra maratona pela cidade por esses dias, fazendo programas culturais.  Visitamos mais museus, fomos a exposições e lugares históricos, conhecemos suas praças e parques bem cuidados, passeamos por feiras de artesantos.  A leitura, a música e a grande tela foram nossas parceiras na capital, assim como os restaurantes, bares, feiras, cafés e, até mesmo, os supermercados.  A capital, que nos era desconhecida até então, foi uma delicada e deliciosa surpresa, muito acima das expectativas que tínhamos. Ela nos proveu muitos momentos de prazer ao longo das duas semanas que estivemos por lá.

Poderíamos ter ficado muitas outras passeando e curtindo Bogotá mas precisávamos seguir nossa viagem e explorar o restante do país. Tínhamos certeza que encontraríamos outros atrativos que, tal como a capital, nos encantaria muito.

Saímos rumo ao norte, com objetivo de alcançar o litoral caribenho. Nossa idéia, porém, era ir sem qualquer pressa, parando ao longo do trajeto a qualquer momento para conhecermos um pouco mais do interior colombiano.  A primeira dessas paradas foi ali bem pertinho, a poucos quilômetros da capital, na cidade de Guatavita.

Esse pequeno lugarejo é bastante pitoresco e recebe o mesmo nome da famosa lagoa que fica nas redondezas, a qual, de acordo com o que se diz, é a origem da famosa lenda do El Dorado.  Anteriormente a vila se localizava mais ao fundo do vale mas este local seria parcialmente inundado por conta da construção de uma represa. Por pressão das pessoas e um incrível trabalho do arquiteto Jayme Ponce de Leon, a nova vila, então denominada Guatavita La Nueva, foi reconstruída em sua atual localização quase que como uma réplica da antiga, preservando as mesmas características arquitetônicas e transformando-a em um verdadeiro museu de arte a céu aberto. 

Apesar de termos ido até a entrada do parque onde se localiza a histórica lagoa, acabamos optando por não fazer o caminho até o mirante pois além do preço para estrangeiros ser absurdo e injustificadamente alto, o programa nos pareceu turístico demais. Em compensação, recebemos de Guatavita algo muito interessante e valioso, que foi o bate papo que tivemos com o Henry na noite em que chegamos à cidade.

O Henry é um colombiano da capital que após anos morando nos Estados Unidos resolveu voltar ao seu país para viver uma vida tranquila e fazer o que ama, cozinhar.  Passamos a noite naquela lanchonete do posto de gasolina de beira de estrada, dividindo nossas histórias enquanto saboreávamos as suas deliciosas arepas recheadas, vencedoras de diversos concursos gastronômicos. Ouvir tantas coisas fantásticas de uma pessoa que já viveu tantas coisas diferentes na vida e finalmente decidiu correr atrás de seu sonho valeu muito à pena.  A noite que passamos foi uma fantástica troca de experiências humanas, uma lição de vida daquelas que nos engrandece como pessoas.

Nosso destino seguinte era Vila de Leyva, cidade histórica no departamento de Boyacá.  Antes de irmos, porém, decidimos passar por Chia e conhecer o recomendadíssimo restaurante Andres de Res.  Fizemos um contorno no caminho e pomo-nos na rodovia novamente em sentido da capital. Logisticamente não fazia qualquer sentido, já que Vila de Leyva fica ao norte e estávamos indo para o sul, mas nossa vontade de experimentar a carne de lá era tanta que nem nos importamos em percorrer algumas dezenas de quilômetros a mais para saciar nosso desejo.

Embora bastante conhecido pelos turistas, diferentemente do da capital, o restaurante de Chia é basicamente frequentado por colombianos.  Devoramos uma parrilla dupla naquele local psicodélico e depois de um bom tempo no trânsito voltamos à rodovia que nos levaria ao nosso destino naquele dia.

Na metade do caminho o sol já ia se escondendo por detrás das montanhas e ao nos aproximarmos da cidade, além do escuro já dominar totalmente a rota, uma fina e intermitente chuva deixava o caminho bastante escorregadio. Como já dito no começo, as estradas colombianas estão longe de serem razoáveis e, por isso, o final de nosso percurso foi um tanto tenso.

A garoa tirou um pouco do brilho, mas dava para perceber o quanto a cidade é charmosa e aconchegante.  As ruas e calçadas são feitas com pedras rústicas e irregulares e são delimitadas pelas grandes e alvas paredes das casas tipicamente coloniais.  Extremamente bem preservadas, estas casas parecem uma pintura de quadro de tão ornamentadas por suas janelas, sacadas, balcões e luminárias, artística e detalhadamente trabalhadas.

Nos instalamos num camping próximo ao centro da cidade e ficamos simplesmente vagando pelas suas ruas nos dias que se seguiram.  Não havia muita movimentação ao longo da semana, mas a beleza de sua arquitetura colonial e o ambiente de tranquilidade eram suficientes para nós. 

Geralmente despertávamos antes do amanhecer com um maldito galo — sim, havia um pequeno galinheiro no camping — nos avisando que o dia estava prestes a raiar e começávamos a preparar nosso farto café da manhã com toda a calma do mundo. Depois nos púnhamos a caminhar pelas esquinas, vielas, praças da cidade em meio aquele ambiente bucólico que pairava no ar.  À noite levávamos garrafa e taças de vinho para a praça central, sentávamos na escadaria de pedra da igreja e ali ficávamos observando o movimento das pessoas enquanto batíamos longos papos.  Ficávamos plenamente envolvidos por toda aquela arquitetura antiga e embalávamos nossos papos com um bom malbec. 

A feira semanal da cidade é outra atração à parte. Passamos praticamente o sábado inteiro passando entre as barracas que ofereciam uma enorme variedade de frutas e hortaliças extremamente coloridos, além de queijos, pães e comidinhas deliciosas. A cidade fica bem mais cheia no fim de semana, mas os cafés e restaurantes localizados nos pátios internos das enormes casas coloniais são o lugar perfeito para quem quer passar o tempo naquela atmosfera calma e relaxante.

De Vila de Leyva seguimos mais para o interior e percorrermos um bom trecho de estradas rurais para chegarmos até Guadalupe.  Famosa por suas “gatchas” —depressões circulares geometricamente perfeitas que formam verdadeiras piscinas individuais no rio da cidade —, o local está incrustrado no fundo de um vale e oferece muita paz em meio à natureza da região.  A cidade tem vocação para atividade rural e, por isso, tem muitas opções para quem estiver disposto a fazer caminhadas e trilhas. Só sentimos falta de não estarmos com nossas bicicletas para podermos explorar aquela zona pedalando por suas estradas rurais até alguma de suas muitas cachoeiras.

A igreja de Guadalupe chama atenção. Apesar de relativamente recente, a construção é toda de pedra e aparenta uma catedral de tempos antigos, sendo bem imponente e chegando a ser desproporcional diante do pequeno tamanho do centro da cidade.  Após um pernoite bem agradável num camping rural, seguimos nosso caminho para o norte.

Nossos planos eram ir até San Gil e ficarmos uns dias por ali.  Essa região é um lugar onde se praticam muitas atividades e esportes radicais, como rafting, parapente, rapel etc… mas ao chegarmos nos deparamos com uma grande e desorganizada cidade.  A estrada até lá era lindíssima e cortava imensos paredões de rocha com densa e verde vegetação ao fundo, mas a cidade em si era demasiadamente feia e caótica. Percebemos que todas essas atividades eram feitas em um parque de esportes radicais cuja a entrada era caríssima e, então, ficamos muito desapontados.

Decidimos desistir e seguir viagem mas, por alguma razão, instinto ou inspiração divina, resolvemos parar em um local e pesquisar se não havia alguma outra opção pelas redondezas.  Encontramos referências sobre um local chamado Barichara, que estava além das montanhas, a oeste de San Gil.

Arriscamos e percorremos os cerca de 25km da sinuosa estrada que divide as cidades, ora subindo ora se aprofundando no vale e ao chegarmos nos deparamos com um verdadeiro “tesouro escondido”.

Apesar de não possuir o mesmo valor histórico de outras cidades da Colômbia, essa pacata localidade mantém, de forma absolutamente natural e cotidiana, as características de uma cidade do século retrasado. Tudo aquilo que for possível imaginar de preservação de uma cidade antiga é exponencialmente maior em Barichara e ficamos absolutamente encantados com o local. 

Para quem procura diversão, animação e distração, Barichara é o pior lugar para se estar. Para quem gosta da paz e tranquilidade de uma cidade pequena em meio à natureza, com arquitetura harmônica, histórica e cultural, esse é o lugar a se visitar na Colômbia.  Descrever a beleza simples e ao mesmo tempo irresistível do lugar é muito difícil, portanto, economizarei as palavras e deixarei que o saudosismo e a nostalgia nos remetam de volta aquele incrível lugar.

Barichara, definitivamente, foi um dos exemplos que confirmam a importância de sermos flexíveis no tempo e no roteiro da viagem, para que tenhamos a experiência dos descobrimentos involuntários e das agradáveis surpresas que o acaso sempre nos reserva.

Alguns quilômetros para o norte, pouco antes de Bucaramanga, capital do departamento de Santander, existe uma região montanhosa formada por íngrimes e escarpadas montanhas que formam, ao fundo, um canyon denominado Chicamocha. Nosso destino seguinte, após deixarmos a incrível Barichara, seria exatamente essa região, onde planejávamos nos estabelecer no Parque Nacional que leva o mesmo nome.

Como já era quase final da tarde, para não pagarmos uma diária inteira do parque, ao invés de entrarmos nele resolvemos nos estabelecer num camping que fica no alto de uma dessas montanhas e passar a noite por lá. Éramos os únicos no camping e depois de organizarmos nossas coisas, subimos até um platô na montanha e ficamos apreciando toda a beleza do entardecer, circundados por belíssimas paisagens e observando o pôr-do-sol e o céu alaranjado enquanto bebíamos umas taças de vinho.

Quando já estávamos preparando nosso jantar, a chuva chegou.  Inicialmente ficamos felizes pois o clima na região estava bem seco e parecia que a chuva seria muito benvinda para os moradores daquela zona. O problema é que ela não parou a noite inteira e, pior ainda, aumentou muito sua intensidade.  A chuva, que seria uma benção, se tornou uma desgraça.  Para o infortúnio geral, ela fez desabar diversas barreiras naquela parte do departamento de Santander, inclusive com algumas vítimas fatais, e interditou a estrada pela qual prosseguiríamos viagem no dia seguinte.

Nosso acesso ao norte do país estava, então, impedido. Pouco mais de 2km a frente de onde havíamos passado a noite, havia caído uma grande quantidade de terra na pista e pelas previsões ela só estaria liberada após uns 5dias de trabalho árduo de máquinas e homens. Nem mesmo o parque do Chicamocha poderíamos visitar porque sua entrada estava além da queda da barreira.

Decidimos, então, regressar cerca de 300km pela estrada rumo ao sul e pegar um desvio. Numa rota alternativa, acessaríamos uma outra estrada que nos levaria ao norte do país. Foi praticamente um dia inteiro de viagem para chegarmos até Vélez, uma pequena cidade por onde passa a estrada que faz a conexão com a rota Pan-Americana.

Ocorre que, a mesma chuva que interrompeu a estrada em ponto próximo a Bucaramanga também causou prejuízos por ali.  Uma parte do barranco à beira da estrada cedeu, fazendo cair toneladas e toneladas de terra e impedindo que seguíssemos viagem também por aquela via alternativa.  Passamos a noite na cidade de Vélez indo atrás de informações sobre outras possibilidades de rotas.

Descobrimos, então, que o pessoal responsável pela desobstrução da via criaria uma estreita passagem onde carros particulares, em intervalos programados, poderiam passar e seguir viagem a partir do dia seguinte.  Acordamos e partimos pela estrada na esperança de sermos um dos primeiros. Ledo engano, apesar de levantarmos antes das 7hs, chegamos ao local e já havia uma grande fila de carros e caminhões à nossa frente.

Com a previsão de abertura do intervalo de passagem para as 11hs, encostamos o carro, desligamos o motor, tomamos um café da manhã, botamos nossas cadeiras para fora e começamos a ler no meio da estrada. A situação era um tanto inusitada, mas sem nada poder fazer, o melhor era relaxar. 

Com algumas horas de espera, a passagem de veículos particulares foi permitida por esse desvio que tinha um obstáculo a ser superado, uma montanha de terra com muita lama.  Como tínhamos um 4×4 passamos sem maiores problemas e pudemos seguir viagem. Apesar de nos proporcionar vistas lindíssimas, a estrada era bastante precária e por isso demoramos muito tempo até alcançarmos a rodovia Pan-Americana.

Quando chegamos nela também perdemos muito tempo parados nas filas dos caros e incontáveis pedágios, que eram abarrotados de tantos caminhões que faziam a rota até o porto de Cartagena. Foram mais de 600km nesse dia em meio a estradas difíceis e com muito tráfego e, por isso, tínhamos a impressão de termos percorrido o dobro dessa distância.

Em El Burro, já quase ao entardecer, saímos da rodovia e entramos na estrada que nos levaria a Santa Cruz de Mompox, a qual cruzamos seus primeiros quilômetros testemunhando um enorme sol alaranjado que se punha bem a nossa frente.

A cidade de Mompox é outro importante ponto histórico e patrimônio cultural da Colombia. Ela se situa às margens do rio Magdalena e teve seu apogeu no século XIX por ser um ponto estratégico na principal rota de acesso ao interior do país (o rio Magdalena). Seu casario antigo bem preservado é muito bonito, tendo característica arquitetônica típica da tempos coloniais, com pés direitos elevadíssimos, fachadas simples, grandes portas e janelas e colunas que sustentam telhados, formando enormes varandas onde ficam muitas cadeiras de balanço.

Outra característica típica de Mompox é sua temperatura extremamente alta. Para ser mais enfático, a cidade é um verdadeiro inferno de calor. Longe da leve brisa que costuma bater na orla do rio, caminhar pelas ruas sob o sol castigante é um verdadeiro martírio. Por sorte, ou melhor, experiência, todas as casas são construídas com um pé-direito muito alto e materiais que refratam o calor então dentro das residências a temperatura é bem mais agradável, mas mesmo assim andar naquele clima equatorial é muito penoso.

Embora muito simpática, resolvemos rapidamente fugir do forte calor de Mompox e não ficamos mais do que um par de dias por lá.  Para cortar caminho e pegar a Pan-Americana mais à frente, seguimos por uma estrada de terra que se estende por quilômetros e quilômetros no meio do nada e sem qualquer vestígio de estrutura mínima.  Com o voô de drone que fizemos nesse caminho, percebemos que estávamos totalmente envoltos pela natureza e éramos apenas um pequeno grão numa imensidão de terra árida. 

Só no começo da tarde alcançamos a rodovia pan-americana. Dirigimos mais uma centena de quilômetros até chegarmos a cidade de Santa Marta e nos deparar com o mar do caribe bem a nossa frente.  Chegávamos, enfim, ao norte do país.  Após uma rápida parada em um supermercado à beira da estrada, abastecemos nossa despensa e seguimos viagem até a praia de Palomino, nosso destino final naquele dia.  Ficaríamos no camping Bernabé, que era um local muito bem recomendado pelos nossos amigos Vitorio e Niviane, da expedição Asa Branca. 

O local era absolutamente perfeito para o que queríamos: sol, areia, sombra, mar, coqueiros, calor, brisa, paz e sem wi-fi….  havíamos encontrado o lugar que, pelo menos em nossas mentes, era o que mais imaginávamos na Colômbia caribenha.  Por duas semanas ficamos nesse paraíso à beira do mar e protegidos pelas sombras dos imensos coqueiros.

Nossa rotina era simples e básica, mas perfeita.  Acordávamos com o sol nascendo, fazíamos exercícios ali mesmo na areia, mergulhávamos no mar de águas limpas, preparávamos nosso café da manhã, lavávamos a louça, íamos caminhar, líamos, preparávamos o almoço, líamos mais um pouco, voltávamos a caminhar, observávamos o sol se por e testemunhávamos as estrelas e a lua surgir no céu. Fechávamos o dia maravilhoso celebrando com um vinho e íamos dormir torcendo para que o dia seguinte fosse tão perfeito quanto aquele que se encerrava.

Um dia resolvemos caminhar pela beira da rodovia os 3km que separavam o camping onde estávamos da vila de Palomino. Bastante simples, a vila é praticamente composta por uma rua principal cheia de padarias, restaurantes e hostels, abrigando uma quantidade enorme de turistas — principalmente europeus — que vão em busca do despojamento de um local mais rústico. Só que, para nós, não havia nada mais rústico e natural do que o local onde estávamos. Até mesmo aquele vilarejo simples nos parecia caótico diante do cenário de tranquilidade que nos envolvia na parte da praia onde estávamos. 

Nem mesmo o Parque Nacional do Tayrona, a poucos quilômetros dali, nos atraiu. Muito elogiado por todos que encontramos na Colômbia, o parque estava em nossa lista de destinos mas quando passamos pelo portão de entrada no dia seguinte e vimos várias vans e ônibus de turismo chegando, engatamos a marcha a ré e regressamos ao nosso pequeno e isolado paraíso.

Não fosse nosso plano de voar até as ilhas de San Andrés e Providencia, no meio do mar do Caribe, teríamos permanecido em Palomino mais algumas semanas. Mas, como tínhamos esse compromisso na agenda, partimos desse paraíso com destino a Cartagena.

No caminho planejamos parar para conhecer Barranquilla, que fica mais ou menos na metade do caminho, mas ao chegarmos lá ficamos extremamente impressionados com o tamanho da cidade e sua desorganização e sujeira.  Já estávamos cogitando abortar o plano quando, ainda parados no trânsito do centro, testemunhamos um assalto praticado a uma motociclista exatamente a nossa frente.  Foi o sinal que faltava para eliminar nossas dúvidas e irmos direto a Cartagena.

Estávamos saindo de um período de paz absoluta num paraíso e tudo o que não queríamos era exatamente a confusão de uma cidade grande e todos os seus indissociáveis problemas.  

Seguimos, então, pela estrada mais uns 120km para o oeste até chegarmos a Cartagena, onde paramos na cidade murada e passeamos pelas ruas históricas, tentando encontrar um local para deixar nosso carro e nos estabelecer por lá. A idéia era ficar lá por uns dias até nosso voô para San Andres mas, diante da ausência de opções de nos estabelecer com o Roots, alteramos o plano ficar em Playa Blanca, na Isla Baru.

O Urantia Hostel foi uma ótima escolha. Oferecia uma boa área livre e bastante conforto para ficarmos no Roots, além de uma deliciosa piscina que aproveitamos muito bem e ficar apenas 5minutos à pé da praia.

Em geral acordávamos bem cedo e caminhávamos até a praia para conseguir curti-la antes que as hordas de turistas chegassem. A partir das 08hs as barracas e os ambulantes já tomavam quase que toda a faixa de areia e o mar ia sendo invadido pouco a pouco por barcos, jet-skis e grupos enormes de pessoas que chegavam de ônibus e vans que se enfileiravam no estacionamento próximo à chegada.   Antes das 8:30 da manhã já estávamos de volta ao camping e só regressávamos à praia após às 5 da tarde, quando a maioria das pessoas já tinham ido embora.

Nosso planejamento de voar a San Andres foi se esfacelando aos poucos, à medida em que as notícias do corona vírus iam se intensificando e começávamos a nos questionar se seria conveniente ou não embarcar para lá. Iríamos para o meio do mar do caribe e o que nos deixava ressabiados era correr o risco de estar numa ilha caribenha quando, eventualmente, fronteiras fossem fechadas.

Embora àquela altura não houvesse nenhum caso na América do Sul, a crise vinha ganhando repercussão e o governo da Colômbia começava a se manifestar no sentido de impor algumas medidas restritivas para evitar risco de contagio ou propagação do vírus.  Diante da incerteza, decidimos ir para Cartagena uns dias antes da viagem para ter mais acesso à informações.

A cidade estava absolutamente normal e tudo funcionava regularmente. Pegamos um hotel em Bocagrande — a cidade murada não oferece espaços para viajantes de carro — e ficamos por lá aguardando as movimentações.  Fizemos algumas caminhadas diárias pelas charmosas ruas da cidade murada, assistimos o pôr-do-sol na muralha, passamos uma tarde num café-biblioteca lendo sobre história da fundação da cidade, visitamos o bairro boêmio de Getsemani, comemos e bebemos bem, enfim, foi uma estadia absolutamente normal por esses dias.

Na primeira vez que havia visitado Cartagena a cidade estava menos bem cuidada e dessa vez pareceu-me extremamente organizada e limpa. Por outro lado, a quantidade excessiva de turistas e de pessoas oferecendo passeios tirava um pouco de seu charme. Além disso, os enlouquecidos e frenéticos taxistas à procura de clientes nos azucrinavam o tempo todo com suas buzinas infernais.

Enfim, quando chegou o dia de nosso embarque ainda estávamos em dúvida se valeria a pena ou não nos arriscar e permanecer 2 semanas isolados no caribe naquelas circunstâncias. Decidimos ir logo pela manhã até o aeroporto para sondar a situação e chegando lá, percebemos que a tranquilidade que víamos nas ruas da cidade murada era uma fantasia completamente irreal. O aeroporto de Cartagena estava lotado de turistas deixando a cidade e desesperados por regressar aos seus países por conta da decisão da Colômbia de fechar suas fronteiras.

Com as devidas proteções, fomos até uma funcionária da companhia aérea e perguntamos se o voô estava confirmado para aquela tarde. A resposta foi positiva, mas havia uma restrição de que apenas residentes de San Andres poderiam desembarcar.

Com nossos plano esfacelado, entramos no carro e nos dirigimos, mais uma vez, ao camping na Isla Barú.  Aquele era o local mais adequado que poderíamos ficar enquanto a situação não se acalmasse e as coisas ficassem claras. Paramos num supermercado no caminho, compramos comidas e bebidas e rumamos de volta para aquele que seria nossa “casa” pelas duas semanas seguintes.

Nesse novo período no Urantia, o auto-isolamento foi absolutamente tranquilo. Assim como na vez anterior, essas semanas por lá passaram-se rápida e prazerosamente.  Na companhia de dois outros casais brasileiros — o Edu e a Franci (do projeto “Viajo Porque Preciso”) e o Joaquim e a Yara (projeto “Lobo Guará”) — a estadia naquele local foi deliciosamente bem aproveitada.  Além deles, só a dona do camping, sua mãe, algumas araras e papagaios selvagens nos fizeram companhia.  Churrascos, sessões de bate-papo, cinema com pipoca, banhos noturnos na piscina… até mesmo a lua cheia veio dar as caras a marcar sua presença naquele local abençoado.

Depois de duas semanas de muitas conjecturas e mudanças de opiniões, decidimos aceitar a proposta de repatriação aérea feita pela Embaixada brasileira na Colômbia e embarcamos em voos fretados até São Paulo, deixando o Roots num estacionamento de hotel em Cartagena.

Da Colômbia partimos e à Colômbia regressaríamos numa data futura e incerta. Aguardaríamos no Brasil o tempo necessário para que a situação na Colômbia e na América do Sul se tranquilizasse e, enfim, pudéssemos prosseguir com nossa viagem.

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