A Deliciosa Movida Porteña

A Deliciosa Movida Porteña

Nós estávamos na fronteira mais setentrional com a Argentina quando nossa passagem pelo Uruguai chegou ao fim. Nossos planos eram seguir a viagem em direção ao norte argentino para explorarmos essa região bastante pitoresca de nosso país irmão. Para isso, bastaria seguirmos praticamente em uma linha reta na direção ao oeste, pela Ruta 16. 

Pensamos, porém, em antes disso dar uma passada em Buenos Aires.  Claro que logisticamente não faria sentido algum descermos 400km até a capital argentina e depois subirmos em direção ao norte. Seria um contrassenso, ainda mais considerando que poucos dias antes estivemos em Colonia del Sacramento, de onde poderíamos chegar de barco a Buenos Aires em cerca de uma hora e, inclusive, levar o Roots conosco.

Mas, a liberdade de viajar sem compromissos, sem prazo e com flexibilidade de tempo tem essa enorme vantagem. Podemos alterar os planos e aproveitar o melhor de cada país em qualquer momento. E foi exatamente assim que pensamos, “por que não Buenos Aires agora?”.

Como a nossa idéia, na sequência do norte argentino, é descer pelo Chile em direção ao sul do continente, uma visita a Buenos Aires provavelmente demoraria a ocorrer e, definitivamente, não queríamos perder a oportunidade de aproveitar essa cidade tão atraente estando tão próximos.  Além disso, há algum tempo a Samira estava devendo uma visita a uma grande amiga que se mudou para a capital portenha e, portanto, essa seria a ocasião perfeita para juntarmos o útil e o agradável.

A distância de 800km (ida e volta) já não era tão significativa para nossos parâmetros atuais e, então, sem maiores discussões decidimos fazer esse pequeno desvio na rota e rumarmos à capital argentina.  Da tranquilíssima fronteira Salto-Concórdia descemos pela Ruta 14 até aproximadamente a metade do caminho quando, na cidade de Zárate, pegamos a Ruta 9 em direção ao nosso destino final.

Ambas as rodovias são bem sinalizadas e largas e mesmo fazendo uma parte do trecho à noite, já que havíamos deixado o Uruguai relativamente tarde, não consideramos uma viagem exaustiva.

A paisagem ia se modificando à medida que rumávamos para o sul; os extensos campos com plantações e rebanhos foram ficando para trás e as cidades, cada vez maiores, foram tomando conta de nossas vistas.

A impressão final ao longo desses 400km foi que à medida em que nos aproximávamos da capital as condições de qualidade de vida iam se deteriorando.  Enquanto no interior as pessoas estabelecidas à margem da estrada moravam em um ambiente bem mais agradável e harmonioso, ainda que bastante simples, a degradação ambiental, a favelização das moradias, a falta de saneamento e o caos só aumentavam quando nos aproximávamos dos centros urbanos. 

O entorno das cidades mais próximas à capital é deprimente e sufocante quando comparadas às do interior.  Triste perceber que, assim como o Brasil, nosso país irmão aparentemente também não soube usar o desenvolvimento cientifico, a evolução das idéias e o progresso econômico para melhorar as condições da população urbana mais afastada do centro.

Mas enfim, depois de cerca de 6 horas de viagem, finalmente havíamos chegado em Buenos Aires — pois é, quem viaja de Defender não pode ter pressa.  Só que quando achávamos que logo iríamos parar de dirigir, o GPS nos pregou uma peça e ao invés de irmos para o bairro de Olivos — onde ficaríamos hospedados na casa da amiga da Samira alguns dias — fomos guiados para uma rua homônima que fica do outro lado da cidade.  Só descobrimos o erro quando chegamos ao local e o número do prédio não existia. Perdemos um hora e meia nessa volta extra pelo tráfego de Buenos Aires e o jantar de boas vindas marcado com o casal anfitrião só foi ocorrer quase que à meia-noite.

Nos dias que se seguiram, enquanto Evelyn e Juan trabalhavam, aproveitamos para curtir esse bairro da cidade onde nunca havíamos estado antes.  Ao que parece, Buenos Aires está se expandindo nessa direção e a região está cheia de novos prédios e boas opções de gastronomia, serviços, parques e áreas verdes.

Passeávamos pelo bairro observando a rotina das pessoas e, também, conhecendo restaurantes e supermercados para provarmos as delicias gastronômicas da Argentina.  Fizemos, ainda, um longo passeio de bike pela orla do rio da Prata até Tigre, onde chegamos ao delta do rio que dá nome à cidade vizinha.

O passeio de cerca de 15 quilômetros é incrível. Parte é feita por uma ciclovia que segue a linha do trem e que depois corta um parque muito bonito, chegando a uma zona de bares e restaurantes que ficam à beira do rio. Na sequência passamos por San Isidro, uma municipalidade muito charmosa com casarões históricos, ruas arborizadas, clubes náuticos, bistrôs e restaurantes alternativos.

Chegando a Tigres demos um passeio pelo mercado municipal, que fica localizado num porto ainda ativo.  O local é uma graça e mistura embarcações de cargas de pequeno porte e passageiros.  Nos armazéns coloridos é possível encontrar bastante artesanato, artigos de decoração, restaurantes e comércio de alimentos naturais, orgânicos, temperos e especiarias.

Passamos pelo parque central de Tigre e decidimos ir conhecer a linda estação ferroviária.  Por fora a estação parece uma construção histórica mas por dentro é tudo moderno e muito bem cuidado.  Como vimos muitas pessoas indo para a plataforma de embarque de bicicleta, resolvemos dar uma passeada de trem e abreviarmos uma parte do caminho de volta a Olivos.

Compramos os bilhetes e quando entramos no trem nos divertimos muito quebrando a cabeça para entender como encaixar as bikes na área reservada para elas dentro do vagão.  Depois de um tempo testando várias formas e atrapalhando os passageiros que embarcavam, uma pessoa chegou e guardou a sua bicicleta em poucos segundos.  Foi tão fácil e óbvio que nos entreolhamos com incredulidade diante da situação e ao final demos umas boas gargalhadas de nós mesmos.

Durante as noites fomos em locais incríveis na região de Palermo na companhia de nossa anfitriã.  Jantamos no inusitado UpTown, um bar que é ambientado como uma estação de metrô de Nova York e a partir de meia-noite vira uma balada, e conhecemos um dos “bares secretos” de Buenos Aires, que aparentemente é uma das novas modas da cidade.

A entrada desse bar é pelos fundos de um restaurante japonês e por alguns minutos ficamos aguardando numa sala, que é a adega do restaurante mas que parecia um depósito antigo e escondido de bebidas. Quando a hostess chegou e abriu uma porta escondida, nos deparamos com um outro ambiente totalmente surpreendente, reproduzindo a atmosfera dos bares de Chicago durante a lei seca com uma incrível decoração. Todos os detalhes eram perfeitos e a arquitetura do local, o bar, as taças, o nome dos drinks, o cardápio em forma de jornal antigo com notícias da época e a fantástica trilha sonora nos transportava para a década de 30.

Ainda tivemos a oportunidade de participar de uma agradável degustação na vinoteca JÁ, onde além de apreciarmos deliciosos vinhos da região de Lujan de Cuyo obtivemos excelentes dicas de Salta e Mendoza, regiões por onde passaríamos mais adiante.

Tudo estava indo maravilhosamente bem em nossa curta estada em Buenos Aires, mas tínhamos nossos planos e, em tese, deveríamos seguir viagem para o norte após esses magníficos dias por lá.  Daí pensamos, conversamos, pesquisamos, pensamos novamente, avaliamos os custos e resolvemos, mais uma vez, mudar nossos planos.

Decidimos ficar em Buenos Aires por mais uma semana, para continuarmos a curtir a cidade.  Como a Evelyn estava de viagem marcada e o Juan bastante atarefado com umas mudanças, alugamos um pequeno apartamento na região de Palermo Hollywood, lugar a partir de onde poderíamos fazer diversos programas a pé e acessar outras partes da cidade usando a fatya oferta de transporte público do bairro.

Encontramos um local para deixarmos o Roots estacionado ao longo de nossa permanência em Buenos Aires e, tão logo nos instalamos nesse apartamento, começamos a pensar nos programas dos próximos dias.  Eram tantos e estávamos tão empolgados com a cidade que depois de dois dias ali decidimos estender nossa estadia e permanecer duas semanas no apartamento ao invés de apenas uma, perfazendo um total de vinte dias em Buenos Aires.

Tentamos aproveitar ao máximo a cidade nesse período e fazermos tantas atividades quanto possíveis.  Fizemos diversas maratonas ao longo dos dias que se seguiram; culturais, gastronômicas, enológicas, históricas e, também, de “Game of Thrones”.

Isso porque, na segunda noite que passamos em Palermo saímos pelo bairro e percebemos que todos os bares estavam repletos de pessoas avidamente olhando para televisões. Imaginamos até que fosse uma partida de futebol da seleção mas na verdade era a estréia da última temporada de Game of Thrones.        

Como nunca havíamos assistido um capítulo sequer, ficamos impressionados com o nível de fanatismo dos portenhos e chegando em casa fomos procurar na televisão a série e tentar entender o fenômeno.  O resultado foi uma loucura total: em menos de quinze dias assistimos as sete temporadas anteriores e nos preparamos para assistir o terceiro episódio da última temporada ao vivo com nossos companheiros de vício.

Boa parte das madrugadas foram tomadas por episódios e mais episódios de “GOT” mas mesmo assim nas manhãs seguintes já estávamos de pé fazendo nossas atividades pela cidade. Fazíamos nossos exercícios matinais no Parque Mafalda e depois saíamos caminhando pelos diversos bairros da capital, aproveitando tudo que a cidade nos oferecia de bom.

Passeamos pelo parque 3 de Fevereiro, pelo roseal de palermo, pelo novíssimo EcoParque, pelo Jockey Club, e pelo Jardim Japonês. Visitamos os museus de História Nacional, das Malvinas e Ilhas do Sul, o Centro de Memória da ESMA — antigo centro de detenção e torturas durante a ditadura militar —, o MALBA, o Mercado das Pulgas e o Mercado Municipal de San Telmo.  Assistimos a duas peças de “Micro-Teatro” — mais uma das modas da cidade — e a um documentário no Planetário da cidade.  Tudo isso além, obviamente, de explorarmos os mais diversos bares e restaurantes da cidade.

Fomos conhecer e revisitar inúmeros locais para apreciar a boa comida e os bons vinhos servidos na capital argentina.  De manhã, de tarde e de noite aproveitamos toda a cultura culinária portenha pagando preços bastante módicos devido à relação de câmbio Real x Peso.

Restaurantes, bares e cafés; dos mais descolados até os mais simples, dos mais tradicionais aos mais inusitados, dos pé-sujo — os chamados “bodegon” — aos mais sofisticados. Empanadas, milanesas, parrillas, saladas, pizzas, sorvetes, tostados, tortas, hambúrgeres, sanduíches de miga, cervejas artesanais, cafés, vinhos, licuados, chás, doce de leite…. provavelmente muita coisa nos escapou, mas certamente muitas outras foram devidamente apreciadas por esse casal de viajantes fanático por boa comida e bebida.

Outra coisa que chamou nossa atenção foi a qualidade do serviço de transporte na capital.  Por qualquer que fosse o meio — ônibus, metrô, trem, taxi ou Uber — a oferta e o preço são muito atrativos e, em termos de segurança e funcionalidade, Buenos Aires está à frente de todas as capitais brasileiras que conhecemos.  A qualidade é muito superior e a integração entre metrô, trem e ônibus permite rodar praticamente a cidade toda sem necessidade de transporte particular. E tudo isso sem considerar as melhorias que Buenos Aires está implantando em seu sistema viário, com inúmeras construções ao longo da cidade para ter novos viadutos e vias exclusivas para trens urbanos.

Ao final de nossa estadia por Buenos Aires ficamos impressionados positivamente com a cidade. Apesar de toda a dificuldade financeira desses últimos anos e da Argentina estar vivendo um momento complicado politicamente, a capital portenha parece estar vivendo um momento positivo de desenvolvimento e modernização. 

Com vários atrativos e a efervescência cultural de seu povo, a longa e não planejada estadia nessa metrópole com tantas características europeias foi para nós uma grata e extremamente prazerosa experiência.  Nosso pequeno desvio de rota foi, afinal, uma decisão acertada e agora deixamos a cidade grande para seguimos firme ao norte argentino, explorando cidades mais andinas, regiões mais selvagens e caminhos e estradas mais inóspitos. 

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