A Beleza e os Desafios da Bolívia

A Beleza e os Desafios da Bolívia

A Bolívia é única, extremamente peculiar e distinta de tudo que já se viu.  Quem estiver disposto a relevar as críticas mais ferrenhas e ignorar as recomendações de evitá-la terá uma primorosa experiência ao explorar esse enigmático e exótico país.

O país está longe de prover as comodidades que comumente são encontradas em diversos outros locais do mundo, inclusive nos seus próprios vizinhos de América do Sul.  A sua infraestrutura é precária e a economia de mercado é bem limitada, restringindo a oferta de produtos e serviços minimamente diversificados à pouquíssimas de suas cidades.  A singularidade do comportamento boliviano é outro grande desafio.  É necessária a abstração de alguns princípios e lógicas pré-concebidas para se entender certas atitudes e hábitos e, sem sobra de dúvida, a resiliência é a virtude mais útil para quem quer interagir com as pessoas sem maiores traumas.

Não obstante estes e outros desafios, todos são proporcionalmente irrelevantes diante das contrapartidas oferecidas por essa terra andina repleta de belezas.  Quer seja no que diz respeito à sua natureza, ainda intacta em grande parte do território, quer seja na originalidade e riqueza de sua cultura, bastante preservada e ainda muito pouco influenciada pelos padrões globais, o país é uma fonte riquíssimas de experiências inéditas.

Por 42 dias viajamos ao longo de boa parte de seu território, interagindo com pessoas de diferentes regiões, e obtivemos uma visão geral — ainda que superficial — das características mais explícitas do país.  Descobrir a Bolívia nos deu uma oportunidade singular de aprendizado.

Nossa passagem se iniciou por Vilazon, após dois dias de frio congelante em La Quiaca, no lado argentino da fronteira.  O processo de entrada no país — um dos grandes motivos de dores de cabeça relatados por outros viajantes — ocorreu sem maiores problemas. Estávamos na companhia de nossos amigos baianos Rafael e Larissa e havíamos pesquisado bastante sobre os trâmites burocráticos de fronteira.  Talvez pelo fato de a imigração naquele local ser integrada com a saída da Argentina tudo foi rapidamente executado e só tivemos um pouco de demora na obtenção do formulário de trânsito de veículos estrangeiros, a chamada “declaracion jurada”.  

O ato seguinte foi a obtenção do carimbo da polícia de fronteira neste formulário e tivemos que nos livrar da primeira das duas situações de corrupção que vivemos no país.  Quando chegamos ao posto policial observamos um comportamento estranho do agente que nos atendeu.  Ele levou separadamente os casais para uma sala fechada e, depois de verificar as informações e carimbar o formulário, informou que o “custo do serviço” seria de $20 bolivianos (pouco menos de $4 dólares).  Já sabíamos que essa taxa não existia e então dissemos a ele que estávamos sem dinheiro boliviano e que assim que passássemos na casa de câmbio voltaríamos para pagá-lo. Obviamente que ficamos preocupados com as eventuais consequências, mas não retornamos ao local.

Seguimos diretamente ao centro da caótica e desorganizada Vilazon para passarmos na polícia de trânsito.  Queríamos confirmar algumas informações sobre regras e proibições locais para evitarmos complicações nas estradas da Bolívia.  O atendimento foi completamente outro. Dois policiais muito corretos e atenciosos nos explicaram tudo que precisávamos saber e com muita educação e clareza disseram que nós não tínhamos que pagar absolutamente nada a nenhum policial sob nenhuma circunstância, com exceção de infração de trânsito, quando a autoridade seria obrigada a emitir um boleto específico cujo modelo e características eles nos apresentaram ali mesmo.  A única novidade foi que precisaríamos colher um carimbo policial no verso da “declaracion jurada” em cada um departamento do país (os “Estados”).

Esclarecidas as dúvidas, pegamos a Ruta Nacional 14, a “Ruta Panamericana” e seguimos para Tupiza.   A estrada iniciou-se numa planície desértica e depois seguiu para uma região de menor altitude, porém mais montanhosa.  As retas foram substituídas por curvas que contornavam imensas montanhas que se erguiam do solo quase que em ângulos retos e formavam verdadeiros paredões.  Foi a primeira das muitas estradas da Bolívia que nos impressionou por conta da sua integração harmônica com o relevo bem acidentado do país.

Tupiza é uma cidade de porte médio, muito simpática e bem organizada. Para quem vem do sul, ela é a porta de entrada para o Salar do Uyuni, o mais alto deserto de sal do mundo, com mais de 10mil quilômetros quadrados de área total à cerca de 3.600metros de altitude.  Nossa primeira noite foi muito bem dormida sobre o lençol térmico ligado no máximo, mas ao acordamos no dia seguinte percebemos que o teto da barraca estava levemente congelado.  Era o primeiro sinal daquilo que consideramos ser uma das três grandes dificuldades da Bolívia, o seu frio implacável.

Organizamos nossas coisas e partimos ainda no começo da tarde para a cidade de Uyuni. Foram cerca de 250km a percorrer por uma estrada onde vários trechos ainda são de terra. A primeira metade do caminho foi praticamente de subida. A estrada sempre nos levava para o topo das imponentes montanhas bolivianas e quando finalmente o alcançávamos, descíamos e passávamos à montanha seguinte.  Recomeçávamos então a subir, a descer e assim sucessivamente.  O pico da montanha anterior sempre era mais baixo e parecia que estávamos numa escada indo em direção ao teto do mundo.  Ultrapassada a parte montanhosa, a segunda metade da estrada foi rodada sobre uma planície com pavimentação asfáltica de excelente qualidade.

Quando chegamos à cidade de Uyuni já era noite e sentimos o frio desconcertante do deserto.  Mesmo encasacados e dentro do carro a cidade era assustadoramente gelada.  Após a experiência da primeira noite na Bolívia fomos correndo achar uma hospedagem com medo de que não aguentássemos dormir dentro de nosso carro.  Além da altitude, o vento frio que soprava sem parar contribuía para que a sensação térmica caísse para alguns graus negativos. Escolhemos um hotel que embora não tivesse aquecedor oferecia banho quente e muitos cobertores. Foram seis mantas naquela noite e até tivemos muita dificuldade de nos mexer debaixo de tanto peso, mas cada quilo de coberta naquela noite valeu muito a pena.

Após analisarmos as alternativas, resolvemos contratar o passeio de dois dias pelo deserto com uma agência local com um guia dirigindo seu próprio carro.  Apesar da grande vontade de explorarmos o deserto sozinhos, preferimos preservar o Roots e o Polenguinho da exposição ao sal corrosivo e garantir que não nos perderíamos no branco infinito e sem referências do Salar do Uyuni.

Na véspera do passeio dormimos no estacionamento que pertencia à agência e passamos a noite mais fria de nossas vidas até então. Mesmo com o lençol térmico e protegidos dentro da barraca tivemos dificuldades para dormir.  Pela manhã, quando saímos em direção ao deserto, o céu já estava azul e o sol brilhava forte, mas a temperatura não passava de 5 graus. Só lá pelas 10hs é que a temperatura começou a esquentar, mas aí já estávamos em pleno deserto e o vento gélido e cortante não nos deixava sentir nenhum um pouco de calor.  Dentro do carro a temperatura estava agradável, mas fora dele só durávamos alguns poucos minutos, mesmo estando protegidos por luvas, gorro, cachecol e casacos.

Nossa primeira parada foi no marco das bandeiras, onde tiramos algumas fotos e almoçamos dentro do hotel de sal desativado.  Depois rodamos por cerca de 2horas até o vulcão Tunupa vendo absolutamente nada a não ser o branco do salar, que ardia em nossos olhos por conta da luminosidade excessiva com o reflexo do sol.

O Salar do Uyuni é inacreditavelmente belo e impressionantemente grande. Ao subirmos no vulcão tivemos uma vista que nos tirou o folego e nos deu uma noção de sua grandeza.  Só conseguíamos identificar alguns pequenos pontos em meio à vastidão daquele oceano infinito de branco.  Eram insignificantes e só conseguimos vê-los porque eram alguns carros em movimento que se aproximavam do vulcão.

Na sequência passamos pela ilha dos cactos gigantes e paramos para assistir o lindíssimo pôr-do-sol antes de nos hospedarmos num dos hotéis de sal do deserto. No segundo dia do passeio deixamos o salar e fomos em direção à fronteira com o Chile para conhecer as lagoas altiplânicas.  Entre vulcões, montanhas com cumes nevados e colorações incríveis, ficamos admirando a paisagem estonteante daquela região desértica e gélida, muito pouco povoada e repleta de aves como os flamingos cor-de-rosa.

Pegamos muitas referências sobre o parque Eduardo Avaroa com nosso guia, uma das grandes atrações da região, mas achamos melhor explorá-lo quando estivéssemos no vizinho deserto do Atacama, no lado chileno da fronteira.

Ficamos mais alguns dias na cidade de Uyuni antes de partimos em direção à histórica Potosí.  Se achávamos que em Uyuni estávamos na altitude, essa idéia se desfez rapidamente.  A cidade é construída na encosta de uma montanha, a uma altitude média de 4.100mts.

Potosi talvez seja a cidade que mais simbolize a exploração desumana e inescrupulosa dos colonizadores europeus.  A farta riqueza mineral do altiplano boliviano fez da cidade a maior provedora de prata da américa espanhola e centenas de milhares perderam suas vidas ali durante os três séculos de escravidão do povo andino.  Além da população regional, qualquer um da colônia que recusasse a converter-se ao catolicismo era condenado a trabalhar nas minas de Potosí, o que equivalia à pena capital.

A cidade ainda tem preservada suas construções antigas, que dão mostras do quão importante e rica ela foi no passado.  Apreciamos bastante a arquitetura colonial típica e visitamos alguns locais chave da cidade, como o museu da moeda, o mercado e algumas ruas no entorno da praça central.  Suas ruas são quase todas ladeiras e isso dificulta ainda mais as caminhadas por lá.

Quando saímos de Potosi ainda não estávamos habituados à altitude da cidade.  Vínhamos nos adaptando bem à altitude desde o norte da Argentina até o Salar do Uyuni, mas Potosí foi realmente desafiadora para nossos corpos.  As meninas e o Rafael tiveram que tomar alguns litros de chá de coca na tentativa de amenizar os efeitos da altitude mas foi em vão. Essa é, aliás, a segunda grande dificuldade da Bolívia. Boa parte do território está acima de 3mil metros – e não por acaso o nome do país até a sua independência era “Alto Peru” – e dificuldades de respiração, mal-estar, náuseas e dores de cabeça não são incomuns. 

De Potosi fomos para Sucre e a mudança foi drástica.  A temperatura e altitude foram para padrões aceitáveis.  Estávamos a cerca de 2.500 metros de altitude e finalmente conseguíamos respirar normalmente.  Durante o dia a temperatura girava entre 15 e 18 graus, caindo para entre 8 e 10 graus à noite.  Por incrível que pareça, aquilo estava parecendo o paraíso depois do frio enfrentado dias antes.

Antes chamada La Plata e Chuquisaca, a cidade teve seu nome mudado pela terceira vez em homenagem ao Marechal Antonio José de Sucre, herói da guerra de independência.  A ele, por determinação de Simon Bolívar, que ainda em vida emprestou seu nome ao país, foi entregue o primeiro mandato presidencial da república recém proclamada.

Até hoje a cidade é a capital constitucional e oficial do país, embora as atividades políticas estejam concentradas em La Paz. A Casa de la Libertad, local da proclamação da república, abriga um museu com muitas informações sobre o processo de independência e pudemos aprender um pouco sobre a história da criação do país. 

Também conhecida como a “cidade branca” pela grande quantidade de prédios que mantém o branco original em suas paredes e formam diversos corredores alvos espalhados pela cidade, Sucre é muito bonita e um dos principais destinos da Bolívia.  É um local onde muitos decidem alterar seus planos para poderem ficar um pouco mais na cidade, o que também foi o nosso caso.

De Sucre partimos para o Parque Nacional de Toro Toro, local conhecido como o “parque dos dinossauros” pela quantidade de fósseis e pegadas já encontradas por lá.  Logo na saída de Sucre paramos em meio a um dos vales formados pelas montanhas para tomarmos café da manhã. Havia um rio que corria abaixo da estrada e num desvio entramos em direção a ele.  Paramos os carros à margem e por cerca de uma hora curtimos aquele visual de natureza bruta enquanto fazíamos nossa refeição matinal. Tomamos coragem diante da água fria e decidimos tomar um banho de rio já que o sol estava brilhando forte naquela manhã. 

No caminho a estrada nos ofereceu paisagens belíssimas de montanhas, vales e desfiladeiros. Na cidade de Mizque, paramos para comprar um delicioso queijo local feito em uma granja orgânica. Acabamos dormindo na cidade de Cliza pois já estava anoitecendo e obviamente não pegaríamos a estrada à noite para o parque.

Chegar até Toro Toro é uma belíssima aventura em meio à natureza da Bolívia. A nova estrada está em construção e só deve ficar pronta em 2021, então há trechos em que fizemos sobre a estrada antiga e outros em meio a obras.  Montanhas dinamitadas, rios desviados, trechos off-road e muita poeira foram os cenários de nosso trajeto de 100km que levou aproximadamente 3horas e meia para ser completado.

Imaginávamos que iríamos aproveitar todos os seus atrativos, mas ao chegarmos vimos que as condições de visitação do parque eram quase que proibitivas.  Além de pagar o ingresso no parque, para cada passeio era necessário contratar um guia com seu veículo próprio.

Os preços são bem salgados e o custo seria demasiado alto para nosso orçamento.  Preferimos, então ficar só na entrada do parque e na companhia de nossos amigos Rafael e Larissa passamos dias descansando, nos divertindo e nos entretendo com bons papos.  Além disso as noites de carteado sob a luz da lua cheia e regadas a vinho foram deliciosas.

Na saída de Toro Toro perdemos um dia inteiro procurando o drone que deu uma pane e resolveu sumir enquanto filmávamos os carros enfrentando a estrada. Só à noite descobrimos que um morador local o havia encontrado em meio a estrada e levado pra casa.  Pagamos uma recompensa a ele e terminamos a estrada na manhã do dia seguinte.

Nosso próximo destino foi Cochabamba, a cidade mais boliviana de todas.  Aproveitamos o suporte que tínhamos de um primo da Larissa que mora por lá e exploramos bastante a cidade.  Para quem não tem tempo de conhecer a Bolívia, mas quer ter uma noção geral do país, Cochabamba é a cidade certa. 

Aliás, a Cancha é o lugar ideal para isso. É uma feira de rua gigante no centro da cidade onde se vendem centenas de tipicidades bolivianas.  De gêneros alimentícios a itens medicinais, o viajante vai encontrar de tudo, inclusive aqueles ônibus vermelhos cheios de bugigangas que parecem mais uma casa psicodélica do que um veículo de transporte coletivo.

Outra coisa típica com que o viajante vai se deparar facilmente em Cochabamba é a forma boliviana de dirigir.  Não que nas outras cidades e locais não tenhamos percebido, mas a bagunça e a desorganização parecem ser mais aparentes lá.  Paradas repentinas, sinais vermelhos desrespeitados, mudanças de faixas sem aviso prévio, carros caindo aos pedaços e lotados de pessoas e as buzinas infernais que não param em nenhum momento do dia ou da noite.

Junto com o frio e da altitude, essa é uma das três grandes dificuldades que enfrentamos na Bolívia.  Talvez só as cholitas — as senhoras bolivianas de tranças, chapéu e roupas típicas — sejam mais tradicionais na Bolívia do que a forma irracional, ilógica, caótica e desorganizada com que os motoristas guiam seus carros. Definitivamente o trânsito da Bolívia não é para principiantes.  E isso dito com a autoridade de quem conhece muito bem o trânsito do Rio de Janeiro, que agora parece um parque de diversões da Disney se comparado com as ruas e estradas bolivianas. 

Além dos carros particulares, há centenas de milhares de vans e ônibus que se espalham por toda a nação com verdadeiros marginais ao volante.  Os passageiros que entram nesses coletivos entregam suas vidas à sorte e ao destino. 

Mas Cochabamba é, também, uma agradabilíssima cidade e nos proporcionou diversos prazeres durante nossa estada por lá. Além dos diversos locais com comida brasileira, que mataram nossa vontade depois de meses longe do nosso país, conhecemos o agradabilíssimo parque Pairumani, a enorme estátua do Cristo e, também, o Pico Tunari, onde fizemos uma experiência de camping selvagem a 5.100mts de altitude.

Essa experiência foi feita com um grupo muito animado que era composto além de nós quatro pelo primo da Larissa e dois amigos (o Bira, o Breno e o Moacir) e pelo casal “Casei sem Casa”(Gabriel e Julia), que saíram de Oruro para se juntar ao grupo.  Éramos nove pessoas em três Defenders.

Percorremos cerca de 50km até o cume do Tunari. Passamos por vistas deslumbrantes com descampados, lagoas, pedras cobertas de gelo e o pico nevado, além de avistarmos diversas lhamas e alpacas que pareciam ser selvagens.  Chegando lá nos instalamos à beira de um lago tendo um enorme paredão nos protegendo do vento. Fizemos nosso churrasco ali mesmo e adentramos na noite comendo, bebendo e tentando espantar o frio.  Depois de muitas risadas e do brigadeiro de sobremesa fomos finalmente dormir. Para se ter noção do frio que enfrentamos, a manhã seguinte chegou e percebemos que a lagoa estava praticamente toda congelada.

Ainda na manhã seguinte descemos a montanha de volta a Cochabamba e passamos a tarde fazendo algumas compras para nos preparar para o próximo destino na Bolívia, que seria no extremo oeste do país.

Partimos com certa nostalgia pois além de termos passado muito bem em Cochabamba e termos feito novas amizades por lá, estávamos também nos despedindo de nossos amigos Rafael e Larissa, com os quais estávamos compartilhando momentos especiais desde o norte da Argentina.

Como já dissemos outra vez, as despedidas trazem tristeza, porém sempre são um presságio de boas novidades e grandes descobertas.  E dessa vez não foi diferente. Depois de uma rápida passagem por Oruro, que não nos pareceu nada atrativo, entramos no Parque Nacional de Sajama, a área de preservação mais antiga da Bolívia, criada em 1939.

Foram dias inesquecíveis no Sajama. Lá foi o local em que mais desfrutamos da natureza exuberante da Bolívia e que ela se apresentou em seu estado mais belo e puro.  Até hoje as lembranças fantásticas dos dias que passamos no Sajama nos entorpecem e nos deixam bastante saudosos. Nem os extremos de frio (pegamos 14 graus negativos) e de altitude (subimos a 5.400metros) foram suficientes para nos afastar das maravilhas que o Parque oferece, dentre elas as águas termais naturais, com a vista para os montes nevados, e a trilha montanhosa até a Laguna de Altitude, ponto de fronteira com o Chile.  Só vivendo mesmo para sentir a paz que a natureza de lá é capaz de transmitir.

Com energias e espírito completamente renovados pegamos a estrada para La Paz.  Foram cerca de 300km por uma estrada praticamente deserta até chegamos à cidade grande.  Um baque enorme para nós pois saímos da paz e da tranquilidade do Sajama e chegamos num caos completo. 

A cidade de La Paz é construída ao largo de algumas montanhas e milhões e milhões de casas se amontoam uma em cima da outra do topo até seu ponto mais baixo.  Só conseguimos ficar um dia na cidade e as únicas atividades que fizemos foi uma volta no Mercado das Bruxas e um passeio completo pelo teleférico, que passa por cima de praticamente toda a cidade.  De lá de cima pudemos ter uma noção mais completa do que é a cidade.

Certamente existe alguma lógica e áreas bem agradáveis em La Paz, mas nós não conseguimos encontrar nenhuma das duas.  Provavelmente precisaríamos de alguns dias para desvendá-la mas depois da paz vivida no Sajama, as vinte e quatro horas que passamos no caos de La Paz foram mais que suficientes. 

Conversando depois com outras pessoas que vivenciaram a cidade por mais tempo, percebemos que os relatos eram, em geral, excelentes.  Certamente fomos nós que não conseguimos captar a essência da cidade e viver a experiência humana intensa que ela oferece, já que naquele momento não estávamos dispostos a isso.  

Seguimos para o lago Titicaca, onde ficamos por alguns dias em Copacabana, nossa parada final na Bolívia antes de atravessarmos a fronteira para o Perú.  Apesar de estar na altitude, a cerca de 4.000 metros, a temperatura na cidade é bem mais amena por conta do lago.  Os dias parecem ser mais longos, o céu mais azul e a atmosfera parece até um ambiente de praia.  Provavelmente no verão Copacabana deve ficar entupida de gente, então foi muito passar por lá em Julho, quando apesar do frio da noite os dias são agradáveis e a cidade é transitável.

Nossa chegada a Copacabana começou com um episódio muito engraçado.  Na entrada da cidade há um posto policial e paramos lá para pegarmos o carimbo no verso da “declaracion jurada” conforme vínhamos fazendo em todos os departamentos da Bolívia.  Depois de tudo feito o policial nos informou que havia uma taxa a pagar de $5 bolivianos (menos de 1 dolar).  Quando o questionamos qual seria a taxa ele falou que era uma cobrança feita pela municipalidade aos visitantes. 

Na segunda vez que pedimos que ele nos explicasse qual era o propósito ou o fundamento da taxa, a sua justificativa foi de que era uma contribuição para a “virgem de Copacabana” e tivemos que nos segurar para não rir diante da autoridade que estava claramente tentando obter uma vantagem indevida.  Falamos que iríamos então à sede da municipalidade para pegar informações sobre a taxa e se fosse o caso pagá-la e assim nos livramos da segunda tentativa de extorsão vivida na Bolívia.        

Depois de nos instalarmos fomos encontrar o casal Gabriel e Julia que estavam na cidade às vésperas de cruzar a fronteira para o Perú.  Como as datas e os planos coincidiam, combinamos de fazermos o passeio da Isla del Sol juntos, assim como o trecho sul do Perú até Lima.

No dia seguinte fomos de barco até o povoado que vive na ilha que fica no meio do Titicaca e que desfruta de umas das vistas mais particulares de todo o país.  Quando chegamos ao mirante no topo da ilha demos um giro de 360 graus e só víamos o azul intenso do lago que se mesclava com o céu sem nuvens.  Ficava difícil determinar ao certo onde era a linha do horizonte.  Só mesmo usando as montanhas nevadas ao fundo para se ter alguma referência.

A trilha pela ilha é uma delícia de se fazer. Apesar de algumas elevações mais íngremes, que ficam mais difíceis por conta da altitude, a caminhada é relativamente leve.  No retorno paramos em um dos restaurantes da ilha e comemos uma deliciosa truta com arroz e batata.

Os demais dias em Copacabana foram de bastante leitura e descanso ao sol.  O clima agradável de Copacabana e os bares da cidade cheios de estrangeiros são sem dúvida atrações que dão uma cara à cidade bem diferente da tradicional Bolívia andina, mas ainda assim há diversos traços da cultura presentes. 

Numa das noites demos a sorte de assistir o Brasil enfrentar e vencer a Argentina pela semi-final da Copa América num bar na presença de um argentino que era uma figura divertidíssima. Ele era um torcedor fanático de futebol e a cada lance do jogo brincava conosco e nos brindava com diversas pérolas de comentários sobre o Brasil e seus jogadores.  Rimos bastante durante o jogo e ao final dividimos as cervejas que ele teve que nos pagar acreditando que a seleção rio-platense sairia vitoriosa naquela oportunidade.

Foram dias muito prazerosos em Copacabana e um excelente desfecho de nossa passagem pela Bolívia.  Tínhamos muitas apreensões em relação ao quinto país que visitaríamos e muitas razões para nos preocuparmos.  Foram tantos os relatos amedrontadores de outros viajantes que chegamos a refletir sobre a conveniência de irmos ou não a Bolívia. Fomos e, ao final, saímos surpreendidos positivamente com o que vimos, vivemos e sentimos.

O viajante de fato não será tratado como “celebridade estrangeira”, como ocorre normalmente em alguns países sulamericanos. Nem sempre ele será visto como um portador de boas coisas, tendo frequentemente que provar que não está lá para se aproveitar do país ou tirar vantagem do seu povo.  Nossa percepção é que talvez pelo lastro das inúmeras perdas que a Bolívia teve ao longo de sua história, o instinto natural do boliviano é desconfiar do estrangeiro e se fechar, prezando, antes de mais nada, por sua auto-preservação e pela manutenção da originalidade de sua cultura. 

Um comportamento que é até compreensível depois de um período longo de colonização predatória e a perda recente de partes importantes de seu território para países vizinhos.  Somado a isso, há um exacerbado discurso de vitimização que é repetido pelo seu líder político e que encontra uma forte ressonância na população mais humilde do país. 

Mas engana-se quem acha que isso significa que o estrangeiro será maltratado na Bolívia.  Como dito, a resiliência é fundamental ao estrangeiro e uma vez compreendida a singularidade da Bolívia o viajante conseguirá curtir muito o país.

Nossa estadia na Bolívia foi vivida sem maiores desconfortos e dessabores e recomendamos a qualquer um que viva essa experiência de muito significado conhecendo a incrível Bolívia.

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