A Argentina Andina

A Argentina Andina

Das planícies rioplatenses rumamos para a altitude do norte, uma área onde a cultura andina se faz muito presente e prevalece sobre a influência europeia da capital e do sul.

Esse trecho da viagem começou em Túcuman e atravessou as províncias de Salta e Jujuy até chegarmos à fronteira com a Bolívia.  Sem desmerecer todo o resto, as estradas foram uma atração à parte e nada menos que “esplendidas” podemos usar para adjetivar as incríveis Rutas Provinciais 307, 33 e 113 e as Rutas Nacionais 40, 9 e 52. Estávamos no coração do norte argentino.

A geografia se modificara por completo e, na altitude do norte, ao invés de grandes extensões planas com vegetação verde abundante, predominam montanhas de coloração avermelhada com formatos inacreditáveis e uma vegetação seca, rasteira e muito resistente ao frio.  Apesar da severidade do clima na região, a natureza foi extremamente generosa ao esculpir ao longo de milhões e milhões de anos verdadeiras obras de arte. 

A primeira cidade que visitamos nessa região foi Cafayate, a cerca de 1.700metros de altitude e no coração dos Vales Calchaquies Salteños. Quando chegamos lá a tarde estava ensolarada, fazia um calor delicioso e as calçadas no entorno da praça central estavam ocupadas por mesas de restaurantes coloridamente decoradas.

Obviamente que não resistimos e nosso primeiro ato em Cafayate foi escolhermos um deles e experimentarmos as famosas comidas típicas da região. A decisão não poderia ter sido mais acertada e nossa chegada foi coroada de forma esplêndida com deliciosas humitas, empanadas e tamales, além de uma garrafa de vinho branco Torrontés — a uva branca da região considerada a única genuinamente argentina. 

O ambiente parecia uma combinação harmoniosa de vários elementos: a saborosa culinária, o vinho leve, a música típica que saía de dentro do restaurante, as pessoas com vestes andinas tradicionais, a tranquilidade e o colorido da cidade, o ritmo desacelerado em que nós estávamos…. foram as melhores boas-vindas que poderíamos imaginar.

O clima de Cafayate é quente e seco mas quando o sol começa a se esconder por detrás das montanhas a temperatura cai vertiginosamente.  Descobrimos isso rapidamente e fomos correndo para o Roots pegar nossos casacos para continuarmos a apreciar aquele momento. 

Começamos a conversar sobre nossas opções de estadia. Como as áreas de campings ficam à margem da estrada que, apesar de asfaltada, não tem acostamento pavimentado, quando os veículos passam levantam bastante poeira. Nós precisávamos de um belo banho depois de uma noite dormida no posto de gasolina em San Miguel de Túcuman e, além disso, não tínhamos noção de como seriam os próximos dias. Acabamos, então, decidindo passar a noite em uma pousada para termos um pouco mais de conforto e enfrentarmos os dias seguintes melhor dispostos.

À noite fomos passear e nos surpreendemos com o que vimos.  Diferentemente da tarde — quando provavelmente as pessoas estavam na “siesta” ou passeando pelos arredores — a cidade estava bem mais movimentada.  Passamos por feiras de artesanato, bares, agências de turismo, comércio e por alguns restaurantes. Ao final, acabamos parando na Casa das Empanadas, onde pedimos uma dúzia delas acompanhada de uma jarra de vinho da casa, novamente o branco torrontés.

Essa uva, cultivada na altitude, parece produzir um vinho bem leve que combina com a temperatura, com o clima seco e com todos os sabores de empanadas que provamos.  Durante o jantar fomos, ainda, surpreendidos por uma dupla de artistas locais que entrou no restaurante e começou a cantar música regional acompanhada por violão e tambor.  Mais uma vez, era a combinação perfeita de ambiente, culinária, cultura e vinho.

A partir do dia seguinte fomos conhecer o entorno da região e ficamos estupefatos.  Do alto de uma duna de areia em Los Médanos pudemos ter uma visão 360 graus do vale e pela Ruta 68, que liga Cafayate a Salta, conhecemos mais de perto as obras primas esculpidas pela natureza.

Nos 70km que percorremos ao longo da via pudemos explorar as incríveis montanhas que se espalham ao longo da Quebrada das Conchas.  Um relevo deslumbrante que nos deixava atônitos à cada curva. Moldadas pelo pelos extintos rios, pelo vento e também pelo desgaste do tempo, as formas tomadas por essas montanhas fizeram com que nos sentíssemos em um lugar completamente único.  O caminho pelos cânions, o anfiteatro, a garganta do diabo e o mirante do vale foram os pontos altos onde paramos para admirar a incomparável beleza do vale. 

Visitamos, também, uma das muitas bodegas da cidade para degustar e nos familiarizar com os vinhos produzidos na região.  Além de conhecermos um pouco da história e das variedades dos vinhos de altitude, compramos algumas garrafas para abastecer nossa adega e, mais uma vez, passamos na Casa das Empanadas para comermos as delícias produzidas naquela cozinha tão simples mas tão saborosa.

Gostamos muito de Cafayate.  É uma cidade que merece ser apreciada e degustada com tempo, como a boa culinária e os bons vinhos produzidos por lá. 

Na sequência partimos para Cachi, outra cidade com características muito semelhantes.  Nosso caminho foi pela Ruta 40 cujo asfalto termina 30km após Cafayate e então se torna puro rípio.

A poeira que pegamos na estrada nem nos importou diante da beleza do caminho ao longo da chamada Quebrada das Flechas.  Ele compensa de longe o desconforto do pó e das costelas que nos faziam pular sem parar.  Foram 180km que percorremos na terra em meio a paisagens deslumbrantes, praticamente intocadas pelo homem e completamente desérticas. 

No meio do caminho chegamos em Angastaco, um monumento natural protegido por lei.  Não há palavras no dicionário que possam ser usadas para descrever o seu encanto nem paisagem terrena que pudéssemos comparar a essa que havíamos acabado de descobrir. Definitivamente esses quilômetros foram os mais exuberantes ou surpreendentes que percorremos em toda nossa viagem até agora. 

Mesmo tendo registrado esse trecho em muitas fotos e vídeos e revistos algumas vezes, nenhum deles foi capaz de captar a beleza do momento que é ficar parado em meio a essa obra-prima da natureza. Parecia que estávamos em Marte ou em outro planeta…

Decidimos parar lá e passar a noite.  Angastaco é uma pequena vila no meio do vale e é povoada pelos descendentes diretos dos “diaguitas”, povos originários que há milhares de anos ocupam aquela faixa de terra no norte argentino.  Na rua ouvíamos apenas os dialetos e as características indígenas de sua população eram evidentes em seus rostos e hábitos.

Fomos gentilmente recebidos por um senhor que nos ofereceu o estacionamento do ginásio municipal para ficarmos. A noite fria e as estrelas que no céu formavam uma imensidão de pontos brilhantes foram nossas companheiras no delicioso jantar que fizemos.

Após o café da manhã partimos de Angastaco e após percorrermos os 100km restantes do trecho chegamos a Cachi.  A poeira era tanta por dentro do Roots que procuramos por um lavador de carro mas parecia que não havia nenhum na cidade. Resolvemos, então, nós mesmos fazermos a limpeza.  Procuramos o camping municipal — que é bem confortável, diga-se de passagem — e nos estabelecemos em uma das vagas destinadas aos motorhomes. Por sorte a água do chuveiro era quente pois quando terminamos a faxina era tarde e o frio já começava a incomodar.

Fomos ao bar do Oliver, na praça central, e tomamos uma garrafa de vinho para nos esquentar enquanto víamos o movimento da cidade. Quando o frio já havia se tornado insuportável, voltamos ao carro e matamos outra garrafa enquanto assistíamos um filme antes de dormirmos.  

“Ninguém Deseja a Noite” relata a experiência de sobrevivência vivida pela esposa do famoso explorador Robert Peary no pólo norte lá pelos idos de 1910. Apesar de termos gostado bastante do filme, as cenas daquela situação extrema só aumentaram nossa sensação de frio e acabamos indo dormir com muita vontade de estarmos no Brasil para relembrarmos o calor dos trópicos aquecendo nossos corpos.

A cidade de Cachi é muito simpática.  Com muita história e uma forte influência da cultura indígena local, sua arquitetura peculiar lhe dá um toque todo especial, tornando-a ainda mais charmosa. Sentar nos bares e restaurantes espalhados pela cidade e curtir a boa culinária e os vinhos da região é um programa delicioso. 

Quando partimos de Cachi em direção a Salta pegamos outra estrada incrível. Pode até parecer exagero mais para qualquer lugar que viajássemos pelo norte argentino as características das paisagens que nos acompanhavam eram fantásticas. Esse trecho, percorrido ao longo da Ruta Provincial 33, fazia um caminho por meio de desertos de cactos e por platôs que ficavam acima da altura das nuvens. Chegamos a subir até 3.350mts de altitude e olhávamos as nuvens abaixo de nós.  As curvas acentuadas à beira das montanhas nos davam uma visão perfeita do penhasco na qual ela foi construída e ficamos impressionados pela sua altura.  Depois descemos para cerca de 1.200mts e já perto de Salta os cânions e desfiladeiros proeminentes deram lugar a diversos riachos e uma mata mais verdejante.

Nosso plano era ficar em Salta alguns dias e fazer a viagem pelo “Trem das Nuvens” para explorar um pouco mais dos atrativos da região, mas a verdade é que depois de passarmos por cidades pequenas e charmosas do norte, Salta não nos parecia tão atraente.

Acabamos nos estabelecendo no antigo balneário da cidade, que hoje foi transformado numa área de camping.  Ficamos ali alguns dias relaxando aguardando a chegada de nossos amigos, Rafael e Larissa, que vinham do Paraguai para fazer parte da viagem pelo norte argentino juntos.

Acabou que essa espera foi providencial pois nos deu tempo para fazermos manutenção preventiva no Roots e planejar os próximos passos da viagem.  Inicialmente havíamos pensado em terminar nossa passagem pelo norte argentino e ir até Mendoza, de onde atravessaríamos para o Chile e desceríamos para a região patagônica. Mas essa parada nos fez refletir e como passaríamos na porta de entrada da Bolívia com nossos amigos baianos, chegamos à conclusão que se valia a pena conhecermos esse outro país na companhia deles, até mesmo por questão de segurança diante de tudo aquilo que já havíamos lido e escutado sobre experiências ruins de outros viajantes na Bolívia.

Quando eles chegaram a Salta, celebrarmos o reencontro com muita alegria.  Desde que Rafael e Larissa começaram a planejar a viagem estivemos em contato trocando experiências sobre a preparação do carro e informações sobre trajetos.  Em novembro de 2018 nos conhecemos pessoalmente em Garopaba e a conexão foi muito boa.  Fizemos uma boa parte do sul juntos, depois nos encontramos novamente em Minas Gerais e no Paraná, antes de sairmos do Brasil.  Não à toa nos apelidamos de “Os Indespedíveis”, já que nossas despedidas eram, na verdade, simples “até breve”. 

Ficamos mais alguns dias juntos em Salta. Fizemos um churrasco, aproveitamos para colocar o papo em dia e    aproveitamos para discutir os trajetos que faríamos juntos.  Em seus planos, após o norte argentino eles seguiriam com o “Polenguinho” para Bolívia e Peru e então foi muito fácil juntar os planos e decidirmos sobre nossa viagem conjunta.

Após Salta partimos para Jujuy, Purmamarca, Tilcara, Humahuaca, Iruya e La Quiaca.   A primeira dessas cidades tem um centrinho bem charmoso mas os verdadeiros atrativos da região estavam nas demais cidades.  Ao longo de duas semanas fomos seguindo para o extremo norte do país, parando nessas cidades pitorescas e percebendo que a cada quilômetro a Argentina ia se tornando cada vez mais andina e que a fronteira entre ela e a Bolívia era uma mera questão política, sem nenhuma influência sobre cultura, costumes, etnias, história, fisionomias e mesmo idioma.

Não pelo espanhol, naturalmente, mas pelos dialetos que agora ouvíamos com frequência nas ruas. O “quechua”, língua oficial do império inca, apesar de ininteligível para nós quatro, se tornava comum em nossa convivência. A todo momento ouvíamos o som incomum das palavras sendo pronunciado nas ruas dessas pequenas e típicas cidades.  Apesar de muito difundida na região que vai da Argentina até o Equador, nunca havíamos escutado essa linguagem e foi uma completa novidade para nós. Quando encontrávamos algum texto escrito e tentávamos lê-lo era uma risada só. A falta de vogais e o excesso de “q”, “w” e “r” em suas palavras faziam com que cada um de nós pronunciasse, ou melhor, tentasse pronunciá-las de uma forma completamente diferente.

O que não tivemos dificuldade nenhuma de adaptação foi com a culinária.  As comidas passavam a ser praticamente as mesmas e à base de batatas, milho, quinoa e carne de lhama.  A comida norteña é realmente muito saborosa e apesar do aspecto que muitas vezes não parecem convidativos, se encaixaram perfeitamente na nossa rotina, nos dando boa energia para encarar o frio e a altitude típicos da região. 

A medida que seguíamos para a fronteira norte o ar ficava cada vez mais rarefeito e a temperatura baixa nos castigava ainda mais.  Estávamos numa altitude média de cerca de 3.600metros sobre o nível do mar, chegando em alguns pontos a 4.500mts. e a temperatura não ultrapassava os 18oC em pleno sol a pino. À noite, a temperatura caia para próximo ao 0oC e começávamos a agregar camadas e camadas de casacos para nos proteger.

Ainda sim nada nos impedia de conhecer os lugares interessantes da região.  Em Purmamarca, curtimos o preservado estilo das construções da cidade e fomos fizemos camping selvagem aos pés do Cerro de 7 Colores. Em Humahuaca subimos até a comunidade El Hornocal para apreciar as montanhas coloridas. Em Iruya, uma cidade encravada nas montanhas andinas, além da inacreditável estrada para chegar à cidade fizemos uma trilha até o povoado vizinho de San Isidro por meio do rio seco em meio as montanhas.

Já na fronteira com a Bolívia, em La Quiaca, a única coisa que conseguimos fazer foi ir ao mercado central e cozinhar dentro da cozinha do hostal que ficamos porque o frio era verdadeiramente insuportável.  O Poleguinho — nome dado a Defender que Rafael e Larissa estão viajando — amanheceu recoberto com uma camada de gelo e com água do motor que havia congelado durante a noite não deixava o carro ligar.

Se existiu algum lugar mais frio que La Quiaca na nossa passagem na Argentina não conseguimos nos lembrar, mas a experiência de dois dias na fronteira foi o suficiente para termos uma noção do que nos esperava no país vizinho, que tem altitude média muito mais elevada e que temperaturas negativas não são nada incomuns.

Aproveitamos os preços em conta da cidade fronteiriça e nos abastecemos com muita comida e vinho e partimos em direção a um novo país para uma nova temporada de descobertas. 

Ao final de nossa passagem pelo norte da Argentina concluímos que, assim como todas os demais trechos da viagem, foi uma experiência cultural extremamente rica e saborosa, onde paisagens e culinária nos encantaram a todo momento e ainda mais enriquecida pela presença de nossos parceiros de viagem Rafael e Larissa.

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