Rasgando o Brasil de Norte a Sul

Rasgando o Brasil de Norte a Sul

Relatamos aqui a nossa experiência ao cruzarmos o Brasil, do Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul, percorrendo mais de nove mil quilômetros em cerca de quarenta dias.

O último post terminou contando nossa experiência no sertão paraibano e na Pedra da Boca, na fronteira com Rio Grande do Norte. O passo seguinte foi cruzar a fronteira desses estados pelo interior com destino à praia de Pipa.  Lá encontraríamos o Paulo, a Dani e a Júlia, da hospitaleira família “Minha Casa sobre Rodas”, que estão no Rio Grande do Norte há alguns meses e que, acompanhando nossa viagem pelo Instagram, gentilmente se ofereceram para serem nossos anfitriões em Pipa. 

Nos quatro dias que ficamos por lá fomos muito bem ciceroneados por esses simpáticos gaúchos. Além de conhecerem muito bem a região, eles já estão integrados aos hábitos e à população local e isso nos permitiu ter uma boa noção de Pipa apesar do pouco tempo que ficamos. Com a ajuda deles fomos apresentados à região de uma forma que, como turistas, dificilmente teríamos conhecido.

Apesar de ser meio de semana e o grosso dos turistas já terem partido, Pipa estava bem cheia para uma semana normal do mês de outubro, mas nem isso nos incomodou diante da companhia e atenção ímpares de nossos anfitriões.  Eles eram sempre muito agradáveis e com a presença da Julinha, uma criança muito cativante, passamos esses dias em Pipa muito tranquilos e relaxados.

Chegamos no final do domingo, fomos recebidos com um belo churrasco de legumes e ficamos à sombra do motorhome deles batendo um papo e nos conhecendo melhor, já que até então somente havíamos trocado mensagens pelo celular.

Nos dias que se seguiram, passávamos as manhãs tomando um delicioso café com frutas e sucos e conversávamos sobre nossas experiências de viagens e planos futuros. Por volta do meio-dia saíamos para almoçarmos no delicioso restaurante da Dona Branca, deixávamos a Julinha na escola e íamos fazer os passeios por Pipa. Passávamos sempre pelo paredão, observando aquela linda vista do mar, visitávamos as diferentes praias da região e caminhávamos pela vila central…. foi absoluta e extremamente proveitosa nossa passagem por Pipa.

No último dia ainda fizemos uma manutenção conjunta no Roots, lavando os faróis dianteiros, e nos despedimos deles.  Foi difícil dizer adeus depois de quatro dias convivendo muito harmonicamente com eles.  Mas a viagem precisava continuar e seguimos caminho em direção ao norte do Estado, chegando em São Miguel do Gostoso, o famoso paraíso do kitesurf.

Quando chegamos em Gostoso já era noite e fomos direto para o camping do Zé Ary nos estabelecer. A dica do Minha Casa sobre Rodas foi excelente pois o local ficava na frente da praia, perto o suficiente do centrinho mas longe o bastante da agitação.

Na verdade, o “camping” do Zé Ary é o quintal da casa dele que, por estar em um terreno relativamente grande, possibilita receber alguns viajantes, especialmente motorhomes que frequentemente se estabelecem por lá.

Fomos conhecer a praia no dia seguinte ainda pela manhã mas, de tão quente que estava o sol, não aguentamos por muito tempo e logo retornamos ao Zé Ary para ficarmos um pouco à sombra.  Apesar do vento lá ser constante e dar uma certa sensação de alívio, ele não é suficiente para amansar o fortíssimo sol e, além de tudo, as rajadas faziam com que frequentemente nos sentíssimos chicoteados pela areia da praia.

Lição aprendida, voltamos à praia mais tarde e melhor preparados. Levamos nossas cadeiras altas e fomos para debaixo de uma barraca de sapê, onde ficamos à sombra lendo um livro e aproveitando só o lado positivo do vento.  No fim de tarde nos mudamos para um bar pé na areia vizinho ao camping e ficamos contemplando a vista na companhia de uma deliciosa macaxeira e umas cervejas bem geladas.

No dia seguinte o Eduardo foi praticar kitesurf, que tinha aprendido no Piauí.  Melhor dizendo, tentar praticar porque o mar e o vento de São Miguel do Gostoso não o deixaram ficar muito tempo de pé sobre a prancha.  Lá as condições de velejo são bem diferentes e apesar das três horas de tentativas, ele não teve muito sucesso.  Praticamente ficou fazendo bodysurf o tempo todo, bebendo água salgada enquanto tentava recuperar a prancha que insistia em se distanciar toda a vez que ele a perdia em suas quedas.

Tentativa frustrada e corpo exausto, decidimos ir conhecer a praia de Tourinhos, que fica próximo de onde estávamos.  Percorremos alguns quilômetros por uma tranquila estrada de terra até chegarmos no bar La Tortuga, onde aproveitamos a boa estrutura do local para ficarmos tranquilos à sombra dos cajueiros e de outras árvores.   

Curtimos o visual daquela linda enseada e ficamos observando o movimento dos pescadores recolhendo suas redes, do vai-e-vem das pessoas caminhando pela areia, das remadas de um solitário praticante de stand up paddle e das incontáveis torres da fazenda eólica que fica na ponta oeste da praia. 

Esporadicamente íamos dar um mergulho na deliciosa e calma água de Tourinhos, que diferentemente de Gostoso não é usada para prática de esportes como kite e windsurfe.  Tourinhos é para relaxamento puro.  Almoçamos um inédito e surpreendentemente delicioso risoto de caju com camarão e tomamos algumas caipirinhas enquanto aguardávamos o famoso pôr-do-sol que, indubitavelmente não nos decepcionou.

Decidimos passar a noite por ali mesmo, acampados no estacionamento do La Tortuga, e aproveitar Tourinhos mais um pouco só que, subitamente após o pôr do sol, o local ficou muito deserto. Insistimos e permanecemos um pouco de tempo por lá mas uma sensação de desconforto nos acometeu e, então, decidimos voltar para São Miguel do Gostoso.  Nada aconteceu e possivelmente nada nos aconteceria, mas aprendemos a respeitar nossos instintos e achamos por bem deixar aquele paraíso antes do planejado. Foi uma lástima pois o céu estrelado e o reflexo da lua que já começava a brilhar no mar seriam excelentes companheiros para nossa noite.

Passamos então nossa última noite passeando pelo centrinho da cidade e voltamos ao camping do Zé Ary para dormirmos.  No dia seguinte, ainda pela manhã, deixamos São Miguel do Gostoso em direção ao vizinho município de Touros, onde fomos conhecer o “Paraíso Brasil”.

Mais uma dica quente do Minha Casa sobre Rodas!!! Contratamos um “day use” e passamos o dia curtindo aquela estrutura de resort estabelecida bem na curva nordeste do Brasil.  O local oferece a vista para uma lindíssima praia, cabanas de muito bom gosto com espreguiçadeiras, um bar e um restaurante com vista para o mar.

Vizinho ao local, ainda fomos conhecer o farol da Marinha que fica exatamente na esquina do Brasil e que, por isso, recebe o nome de Farol do Calcanhar. 

Paramos, também, no marco zero da BR101 para tirar umas fotos.  Essa rodovia, que se estende por 4.765km, corta o Brasil de Norte a Sul ligando o Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul pelo litoral. 

Esse foi o local simbólico onde nossa viagem-teste pelo Brasil começou a terminar.  Em Julho havíamos iniciado nossa viagem subindo pelo Brasil e passando pelas regiões Centro-Oeste (Goiás e Distrito Federal), Norte (Tocantins) e Nordeste (Maranhão, Piauí, Cerá, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte) e, agora, nossa última etapa pelo País seriam as regiões Sudeste e Sul, onde começamos a nos aproximar a partir daquele ponto da estrada.

Seguimos viagem naquele fim de tarde e dirigimos até o Município de Baia Formosa, ainda no Rio Grande do Norte. Ficamos lá por dois dias curtindo a simpática cidade praiana e vivendo um ardente clima de disputa política, já que a votação do segundo turno ocorria naquele fim de semana.

Foi curioso ver a animação e a competição política numa cidade tão pequena e pacata.  Enquanto o partido de esquerda elegia a Governadora do Estado, um outro de direita elegia o novo Presidente do Brasil e ambos os grupos estavam na rua comemorando e discursando em defesa de suas idéias e preferências.

Quando deixamos Baia Formosa, optamos por explorar o trecho de praia final do estado e percorremos cerca de vinte quilômetros na areia até praticamente a fronteira com a Paraíba.  Paramos na praia do Sagi para almoçarmos um prato recomendado pela dona da pousada que ficamos em Baia Formosa na Ombak, uma cachaçaria à beira da praia.  Nos deliciamos com um arroz de camarão feito no coco verde e depois de conhecermos algumas cachaças locais fomos tomar um delicioso banho de rio e voltar ao Roots para seguirmos viagem, a partir dali de volta à rodovia BR101.

Cruzamos o estado da Paraíba inteiro e paramos só em Gravatá, na região serrana de Pernambuco, para dormir num hotel de beira de estrada. Acordamos cedo e prosseguimos viagem cortando o restante de Pernambuco até chegarmos em Delmiro Gouveia, no extremo sul de Alagoas e às margens do Rio São Francisco. 

Nosso objetivo era conhecer e explorar o Velho Chico, esse rio tão famoso e tão importante para o País, que nasce no Sudeste e tem sua foz exatamente entre os estados de Sergipe e Alagoas. 

Não tivemos sucesso na primeira tentativa de nos estabelecer na região. Depois de combinarmos pelo telefone nossa estada com o proprietário do Mirante do Talhado e dirigirmos mais de 30km por terra da cidade para chegar lá, não fomos bem recebidos. A pousada, que também é área de camping, estava vazia e devemos ter encontrado o proprietário num dia de péssimo humor. A má vontade dele nos deixou com uma impressão muito ruim e, apesar da vista para o rio ser fantástica, decidimos procurar outro lugar para ficarmos.

Ficamos bem aborrecidos com a situação mas como nada acontece por acaso, acabamos encontrando uma outra opção, que foi simplesmente uma experiência fantástica.

O Restaurante Castanho fica dentro de uma fazenda no meio da caatinga e é um local construído não só para os visitantes terem uma boa experiência gastronômica mas também para que possam também curtir o dia no rio.  O bom gosto do local, a educação de todos os funcionários e a atenção e simpatia do Eliseu, proprietário e idealizador, fizeram dos três dias que passamos por lá uma estada incrível.

O Eliseu nos brindou com bate-papos incríveis e nos presenteou com histórias fascinantes sobre o Velho Chico e a região. Aprendemos tanto com ele que ficamos impressionados com o tamanho de nossa ignorância sobre aquela parte do País.  Tivemos aulas de história, de geografia, de política, de tradições e culturas que mesmo que lêssemos cem livros não conseguiríamos absorver tanto.  É impressionantemente rica a história desse País e, em especial, do povo e da região nordestina.

Não bastasse isso, ainda fomos agraciados com passeios pelos cânions do Rio São Francisco. Por dois dias saímos pela manhã de lancha para explorar diversos pontos de interesse do Velho Chico e até mesmo stand up paddle no meio dos cânions foi possível fazer.

Saímos tristes por deixar aquele aprazível lugar, mas seguimos de carro até a cidade de Piranhas, talvez a mais famosa à beira do Velho Chico.

Dormimos por lá uma noite apenas. Completamente tranquilizados por todos que diziam que o local era muito seguro, abrimos nossa barraca em plena praça pública ao lado de um casal de Uberlândia que estavam viajando de motorhome pelo Nordeste. Eles já estavam por ali há dois dias e passamos a noite jogando conversa fora e fazendo companhia uns para os outros, enquanto uma banda de forró animava a cidade na pracinha de baixo.

A cidade é cheia de história e foi muito próspera no passado fazendo uma ligação importante para a região, unindo estrada de ferro e a rota fluvial. Além disso, o fato de a emboscada ao bando de Lampião e Maria Bonita e suas mortes terem ocorrido por lá fez com que a cidade ganhasse mais notoriedade e Piranhas soube muito bem explorar isso, vivendo hoje basicamente do turismo.

No dia seguinte acordamos cedo e partimos em direção ao estado de Sergipe. Pegamos a estrada logo cedo e fomos até Penedo, outra cidade histórica de Alagoas à beira do Velho Chico.  Não conhecíamos Penedo e ficamos fascinados por essa cidade, que recebeu a visita do Imperador Dom Pedro II no século XIX. 

Além de conter lindos prédios do século retrasado, muitos especialmente construídos para a visita imperial, a cidade tem um conjunto arquitetônico que remonta séculos anteriores e seu patrimônio histórico é muito rico e muito bem preservado, criando uma atmosfera que nos possibilitou viajar pela história do Brasil desde o começo da época de colonização.  Nessa cidade respiramos a história a cada esquina e é uma lástima o fato de ser muito mal explorada pela indústria do turismo nacional. 

Depois de rodarmos bem pela cidade e explorar toda a história do local, pegamos a balsa e passamos pela última vez pelo rio São Francisco. Chegando à outra margem já estávamos no Estado de Sergipe e de lá seguimos pela estrada por cerca de uns cento e cinquenta quilômetros até Aracajú, onde nos estabelecemos no camping do CCB, na praia de Atalaia.

O local era ótimo e muito bem estruturado.  Havia poucos carros no camping e, como ele é tomado por coqueiros, pudemos escolher à vontade nosso local à sombra para nos estabelecermos.  Mesmo tendo chegado ainda de dia em Aracajú, resolvemos ficar por ali mesmo no camping, descansando e apreciando um vinho branco bem gelado para combater o calor que mesmo à noite insistia em permanecer.

No dia seguinte, ainda que recompostos da viagem do dia anterior, resolvemos passar mais um dia relaxando no camping. Ficamos arrumando o carro, lendo nossos livros, planejando os próximos passos d viagem e, mais importante, evitando o calor infernal que fazia em Aracajú naqueles dias. Ficamos o dia inteiro à sombra dos coqueiros e curtindo a brisa da beira-mar.

Naquele pedaço de verde que ainda sobrevivi em meio à selva de novas construções, tivemos a sensação que estávamos numa cidade pequena do litoral nordestino e tivemos muita paz e tranquilidade.  Mais uma vez decidimos não sair e passar a noite no camping com um belo jantar e mais uma garrafa de vinho, desta vez tinto, deixando para conhecer a cidade somente no outro dia.

Depois do café da manhã do dia seguinte, pegamos um taxi e fomos até o mercado municipal central para finalmente conhecermos um pouco de Aracajú. Passeamos por entre as bancas dos comerciantes, apreciando o colorido e a variedade de oferta dos alimentos.  Confessamos que o local não era dos mais limpos, mas muita coisa ali era bem bonita e a cor vibrante dos produtos expostos nos atraia muito.  Acabamos comprando alguns vegetais para a salada da noite e alguns quilos de castanha de caju para comermos durante a viagem.

De volta ao camping, ficamos o resto da tarde sem fazer nada e passamos mais uma noite agradável, comendo comida saudável e bebendo vinho.  Apesar de não termos explorado muito a cidade de Aracajú, essa parada foi muito proveitosa pois ficamos num relaxante “dolce far niente” e nos preparamos para enfrentar a maratona rodoviária que viria a seguir.

De fato, os três dias que se seguiram foram exaustivos. Fizemos mais de dois mil quilômetros, passando por Bahia e Minas Gerais antes de chegarmos a São Paulo.

Nessa rota paramos rapidamente na Praia do Forte, na Bahia, para almoçarmos e conhecermos a vila, e seguimos viagem até Itatim, onde dormimos numa pousada de beira de estrada.  No dia seguinte encaramos a maratona até Couto de Magalhães, em Minas Gerais, cidade vizinha a histórica Diamantina.

Passamos a manhã comprando queijo, visitando as construções e passeando pelas ladeiras e ruelas de Diamantina até partirmos com destino a São Paulo, onde faríamos uma rápida parada antes de seguirmos para o sul.

A sensação de “voltar” a São Paulo foi muito estranha.  Havia sido nossa base por muito tempo mas, depois de mais de cinco meses de estrada, entrar nessa megalópole nos causou um sentimento de auto crítica muito forte.  Como foi possível viver tanto tempo em espaços tão apertados, ficar presos em engarrafamentos intermináveis e sempre estar correndo para não chegar a lugar algum???

Apesar de ser uma passagem planejada de muito pouco tempo, nosso sentimento era de “não pertencimento”.  Definitivamente essa viagem já havia nos mudado e a cidade que foi nosso lar por anos (5 no caso do Eduardo e muitos mais no caso da Samira) já não tinha mais a mesma cara.

Mas enfim, como dito, nossa estada era passageira e necessária. Ficamos apenas cinco dias; tempo suficiente para lavarmos nossas roupas, lençóis e nos ajustarmos para continuarmos nossa viagem.

Saímos na semana seguinte com destino ao sul e inicialmente iríamos parar em Santa Catarina para participarmos do 10º Encontro Nacional Land Rover. No caminho resolvemos parar em Araquari para visitar nosso querido amigo Plinio, na Victoria Motorhomes, e fazer uns rápidos ajustes no carro.

Seguimos até Garopaba, onde o Encontro ocorreria no Camping Lagoa Mar. Chegamos antes do evento começar e pudemos escolher muito bem nosso local. Precisávamos, também, reservar algum espaço para os amigos que chegariam um pouco depois, então além de estacionarmos o Roots num lugar estratégico ainda isolamos praticamente meia quadra do camping com cordas.

Abrimos nossa barraca, nossa mesa, cadeiras e estendemos nossa rede. Ficamos uns dois dias praticamente sozinhos em nossa quadra enquanto as demais iam se enchendo à medida que outros participantes iam chegando. Tinha gente de várias partes do Brasil e, inclusive, de outros países como Argentina, Colombia, Equador entre outros.  Em menos de quarenta e oito horas o camping estava completamente tomado de Defenders; foram mais de quinhentos veículos no total.

Nossos amigos Beto e Dani, acompanhados da pequena Rafa, chegaram primeiro e no dia seguinte foi a vez do Ricardo e Camila.  Assim, a turma que havia explorado o Jalapão em Julho estava novamente reunida e foi uma alegria poder reencontrá-los.

A estes amigos uniram-se outros e o grupo ficou bastante grande. Por quatro dias curtimos a companhia dos velhos amigos e fizemos novas amizades, num ambiente extremamente agradável e colaborativo. Preparávamos o café da manhã, o almoço e o jantar juntos e curtímos a presença de todos ali.

Definitivamente Land Rover não é só uma marca. É um estilo, uma filosofia, um estado de espírito que, sem lógica ou racional algum, simplesmente consegue reunir muita gente boa e criar fortes laços de amizade.

Lá no evento reencontramos também com outros amigos que fizemos ao longo do processo de preparação do nosso carro, como o Dino e a Mari e o casal Maestrelli mas, seguindo a tradição “landeira”, fizemos novas amizades, como o casal Larissa e Rafael, da Bahia, o Juliano e o Rafael, de Ribeirão Preto, e o Alexandre Bodini, de São José do Rio Preto, para citar alguns.

Realmente foram dias muito proveitosos, onde aprendemos bastante com as palestras e com as conversas com os amantes mais experientes de Land Rover.  Além disso, foi uma satisfação muito grande criar novos relacionamentos e encontrar pessoas que diziam que já nos conheciam através das notícias da viagem.

Depois que o evento encerrou, ainda ficamos mais uns dois dias no camping como o casal da Bahia, que estavam iniciando sua viagem e toparam explorar o sul do Brasil conosco.  Ficamos aguardando a chuva passar fazendo churrasco e batendo papo até a 3ª feira, quando partimos em direção a Urubici.  Paramos rapidamente em Palhoça pois conhecíamos um mecânico lá e o indicamos ao Rafael e a Larissa, que precisavam trocar uma peça no motor de seu carro, o qual carinhosamente ganhou a alcunha de Polenguinho por conta de sua cor.

Chegando lá na oficina do Tiago reencontramos o Roberto Mattar, um catarinense que havíamos conhecido no Encontro Land Rover por intermédio do Dino e da Mari e que, após saber de nosso trajeto naquele dia, nos convidou para parar em seu sítio em Rancho Queimado e passar a noite por lá, já que era caminho para nosso destino.

O Roberto foi uma surpresa incrível. Um sujeito muito educado e extremamente acolhedor. Ele subiu para sua casa um pouco antes que nós e quando chegamos no “Rancho das Hortências” tudo já estava preparado para nos receber.  Ele insistia que a casa estava em obras e bagunçada e, repetidamente, pedia-nos desculpas por isso, mas a verdade é que não estava e a experiência que tivemos lá foi incrível e só podemos agradecer a ele pela infinita gentileza e hospitalidade oferecidas por ele.

Passamos a noite no Rancho com ele bebendo bons vinhos, comendo uma excelente carne e, melhor ainda, tendo uma excelente conversa.  Tanto nós quanto Rafael e Larissa saímos de lá estupefatos com tamanha simpatia e hospitalidade.  No dia seguinte ele ainda nos levou a uma padaria em Angelina, município vizinho, e nos ofereceu diversos itens tradicionais da cidade como cuca, salame e queijo.

Ele ainda teve a gentileza de nos acompanhar em uma plantação de morangos antes de partirmos.  Foi uma enorme satisfação conhecer esse verdadeiro gentleman e uma lástima termos que deixar sua companhia tão cedo. 

Estrada à frente, seguimos na companhia de nossos amigos baianos pela serra catarinense até chegarmos em Urubici por volta da hora do almoço. Tentamos ir direto para o mirante do Morro da Igreja, onde poderíamos avistar a serra e a Pedra Furada, mas como o exército estava fazendo obras na estrada tivemos que aguardar na cachoeira Véu da Noiva algum tempo.

Às 17hs, quando o expediente do Exército terminou, subimos todos até a entrada do mirante. Tivemos que fazer uma caminhada de cerca de 2km porque o portão estava trancado e enquanto caminhávamos, íamos apreciando a vista deslumbrante daquela serra que o topo daquela montanha, a quase 1.900metros de altitude, nos proporcionava. Tiramos diversas fotos e vimos o sol se pôr e a lua cheia nascer no caminho de volta para nossos carros.

À noite decidimos dormir num posto de gasolina na cidade, onde fizemos uma sopa de lentilha para nos aquecer do frio que fazia por lá.  No dia seguinte descobrimos que além de nós quatro haviam outras companhias indesejadas naquele posto e amanhecemos com as pernas cheias de marcas de picadas de pernilongos.

Partimos de Urubici bem cedo e sem comermos nada. Iríamos por uma estrada de terra em direção à Serra do Corvo Branco e nossa idéia era parar no caminho em um lugar aprazível para tomar nosso desejum em meio à natureza. 

O plano funcionou perfeitamente e pouco antes de subirmos a serra, encostamos os carros num descampado rodeado por pinheiros e com o som de uma cachoeira ao fundo. Tomamos o melhor e mais agradável café da manhã que poderíamos ter. 

Tarefa cumprida, seguimos adiante e exploramos essa sinuosa e sinistra estrada, que vai cortando a montanha em curvas estreitas e acentuadas – muitas vezes de 180º graus -, assemelhando-se aos famosos “Caracoles” existentes na América Andina.

Vencida essa primeira serra, percorremos a estrada até Lauro Muller, onde iniciamos a exploração da segunda serra do dia, a do Rio do Rastro.  Tal como a do Corvo Branco, a Serra do Rio do Rastro é encravada na montanha e possui curvas acentuadas mas, diferentemente da primeira, essa está totalmente pavimentada com um asfalto de excelente qualidade e qualquer carro pode encará-la sem maiores dificuldades. 

Ambas, frise-se, são obras de arte da engenharia e precisamos dizer que o povo catarinense deve se orgulhar dessas estradas e dos pioneiros que a construíram há algumas décadas atrás sem a facilidade dos equipamentos atualmente existentes.

Chegamos no topo da serra e após apreciarmos a vista do mirante, guiamos nossos carros até Bom Jardim da Serra, onde nos estabelecemos no pátio do Corpo de Bombeiros da cidade, que foi gentilmente oferecido pelos componentes da equipe que estavam de plantão naquele dia.

Cozinhamos ali mesmo e nos protegemos do forte frio que fazia naquela noite com casacos e meias. Nossa barraca amanheceu orvalhada e o dia permaneceu nublado enquanto tomávamos nosso café-da-manhã. Após nos despedirmos dos simpáticos bombeiros e completar nossos reservatórios com água límpida da serra catarinense, seguimos adiante com o plano de explorar a região dos cânions e adentrar no Rio Grande do Sul por São José dos Ausentes. 

Exploramos bem a região mas acabamos errando o caminho e fizemos um percurso muito mais longo para o Cânion Montenegro do que o necessário.  Acabamos chegando na Serra Gaúcha já a noite e debaixo de uma forte chuva.  Sem muita opção, acabamos por alugar dois quartos numa hospedaria em Canela e cada casal teve um merecido descanso após um dia longo de estrada.

Refeitos do dia anterior, passamos por Gramado e descemos a serra gaúcha debaixo de chuva até Novo Hamburgo, onde visitaríamos a feira anual de motorhomes. Tanto o Polenguinho quanto o Roots se comportaram muito bem na estrada e nós, após essa maratona pelo sul do País, estávamos bem animados para conhecer a feira e ver o que ela poderia nos apresentar de interessante. 

Não que quiséssemos mudar de idéia e nos desfazer de nossos parceiros de viagem, mas considerando que estamos nos preparando para uma viagem de carro ao redor do mundo, nada melhor do que ver e ouvir o que os mais experientes tem a dizer sobre suas experiências.

Chegando lá ficamos meio desapontados pois achávamos que veríamos algo mais profissionalmente organizado.  Em termos de produtos e novidades nesse segmento a feira não agregou muita coisa, com exceção do fabricante de toldos que conhecemos na feira e resolvemos instalar no Roots.

Por outro lado, trocar idéias com outros viajantes e pegar referências foi muito valioso.  Além disso, reencontramos o Rafael e a Mileide, o simpático casal da expedição Raízes da Terra que conhecemos lá na Paraíba, e juntos com os baianos formamos uma turma muito boa e nos divertimos bastante nesses três dias de feira.

Terminada a feira, partimos para Teutônia na 2ª feira logo pela manhã para sermos os primeiros na fábrica para instalar o toldo, conforme havíamos combinado com o Vicente, proprietário da Classic.

O caminho para Teutônia foi muito interessante e a cidade em si é muito peculiar.  Nem parecia que estávamos no Brasil, pois tudo ali tem uma influência enorme da imigração alemã e italiana e a população em muitos momentos comunicava-se entre si na língua de seus ascendentes.  Teutônia é uma cidade típica gaúcha que ainda não perdeu suas tradições e mantém muito forte a história de seus fundadores europeus que chegaram no século retrasado.

Mas nossa estada ali foi bem rápida e no dia seguinte já havíamos encerrado nossa missão. Com o toldo finalizado e instalado, começamos a deixar o Sul e ir para o Sudeste.  Havíamos passado praticamente todo o mês de novembro perambulando por Santa Catarina e Rio Grande do Sul e nosso plano era passar o mês de dezembro com nossas famílias no Rio de Janeiro e São Paulo antes de nossa partida para a etapa internacional da viagem.

No caminho de volta paramos por dois dias em Cambará do Sul e Praia Grande para encontrar a família do irmão da Samira, que estava de visita à região dos cânions, e passamos ainda em Araquari e Curitiba para fazer mais alguns ajustes no Roots.  No dia 1º de dezembro chegamos em São Paulo após quase 150 dias na estrada rodando boa parte do Brasil.

De lá até nossa partida, planejada para o começo de Janeiro e 2019, focaríamos nos pequenos detalhes do planejamento e nas despedidas de nossos amigos e família, os quais ficaríamos sem ver por um bom tempo a partir de 2019.

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