O Irresistível Charme do Uruguai – Parte 2

O Irresistível Charme do Uruguai – Parte 2

Havíamos interrompido nossa viagem pelo litoral oeste do Uruguai para conhecermos a tão recomendada região serrana do país.  Tínhamos saído de Colonia del Sacramento, parado em Canelones para uma festa da “vendímia” e agora seguíamos na estrada com destino à Minas, no departamento de Lavalleja, mais a leste do país. 

À medida que nos aproximávamos do nosso destino víamos a geografia mudar.  As planícies infinitas de antes começaram a ter suas paisagens recortadas por montanhas com cumes achatados como se fossem chapadas.  O relevo se modificara por completo e, embora a elevação não fosse tão significativa, a beleza da paisagem era de tirar o folego. 

Chegamos à cidade por volta do horário do almoço e nossas primeiras paradas foram no Parque Salus, uma reserva natural mantida pela fabricante de água da região, em uma das fábricas de alfajor de Minas, para nos abastecermos pelos próximos dias, e num restaurante, para devorarmos um galeto na parrilla e saciar nossa fome que àquela altura já estava nos matando.  

Demos uma volta pela cidade, pegamos algumas informações e fomos visitar alguns dos campings que a região oferece.  Decidimos pernoitar nesse primeiro dia num camping aos pés do Cerro Arequita.  A paisagem do camping era lindíssima e à beira do rio nos estabelecemos para curtir o visual.  Lamentamos a falta de cuidado do proprietário na infraestrutura do local para receber visitantes e isso nos desestimulou a ficar por mais tempo. Mudamos no dia seguinte e fomos a Villa Serrana, saindo da cidade aproximadamente uns 20km pela estrada. 

Ao chegarmos nessa charmosíssima vila entre as montanhas, vimos um monte de casas de extremo bom gosto e localizadas em pontos estratégicos para terem uma vista incrível da serra.  Apaixonamo-nos imediatamente pelo local e até tentamos alugar uma das muitas casas disponíveis por lá.  Queríamos ficar uns dias, mas a única imobiliária da cidade não estava aberta, ou melhor, estava mas nunca havia ninguém por lá. Depois de algumas tentativas de contato sem sucesso desistimos.

Partimos, então, para o parque Salto do Penitente, distante uns 10km da vila e serra acima.   O local leva esse nome por ter uma queda d’água saindo de duas rochas que parecem mãos em oração e a estrada para chegar até lá parece um cenário de cinema de tão bela.  Rochas aparentes, vegetação rasteira, um céu infinito, estâncias com sedes imponentes, uma plantação de oliveiras, mirantes naturais, rebanhos de ovelhas… até entrarmos no parque ficamos nos deliciando com a vista do caminho.

A sede do parque é um lindo e muito bem preparado refúgio no alto da serra para receber visitantes de passagem ou hóspedes que queiram ficar mais dias.

Resolvemos ficar por ali e como era meio de semana, curtimos praticamente sozinhos as trilhas, a cachoeira e a lua cheia.  À ela brindamos todas as noites com vinho e alguns dos queijos trazidos de Nueva Helvécia. A natureza no local era inacreditável e, vista do alto, aquela serra praticamente virgem ficava ainda mais bela.

Depois de uns dias por lá voltamos ao centro de Minas para conhecermos o Parque Rodó.  Ficamos impressionados com sua infraestrutura. Foi o melhor parque que conhecemos no Uruguai em termos de organização; campos e quadras para prática de esportes, diversos quiosques e churrasqueiras, área verde bem cuidada, banheiros limpos e até piscina pública aquecida no local havia à disposição dos usuários.

Ficamos lá até tarde da noite e jantamos sob a lua cheia que ainda acompanhava nossa passagem por Minas.  Como o parque não permite pernoite, por volta das 11hs saímos e estacionamos o Roots em uma das calmas ruas da cidade para dormimos dentro dele.

No dia seguinte tivemos que tomar uma decisão importante. Iniciar nossa descida para o extremo sul do continente ou ficar mais tempo pelo Uruguai.  Já estávamos há quase um mês e curtindo muito a passagem pelo país.  Sentíamos vontade de explorá-lo ainda mais só que nossa janela para chegarmos ao Ushuaia estava se fechando.  Não que fosse impossível chegar lá no outono, mas certamente perderíamos a oportunidade de visitarmos muitos locais devido ao frio, ao vento e a neve.

Estávamos pensando em como acomodar nossos interesses conflitantes de permanecer mais tempo no Uruguai e chegar ainda no verão ao Ushuaia quando tivemos uma idéia muito boa para solucionarmos o dilema.

Invertemos a ordem dos nossos destinos pela América do Sul, passando a considerar nossa chegada ao “fim do mundo” somente no verão seguinte.  Até lá, exploraremos as regiões mais setentrionais de Argentina e Chile por alguns meses.  Em outras palavras, passaremos o outono no norte desses países, aproveitaremos o inverno e a primavera na Patagônia e no verão percorremos as famosas Carretera Austral e Ruta 40 rumo ao sul.

Assim, sem pressão de prazo e com calendário mais elástico, resolvemos passar mais dias no Uruguai e visitar a costa atlântica antes de retornarmos para o litoral oeste. No caminho decidimos seguir primeiro para as famosas Grutas de Salamanca, no departamento de Rocha, algumas dezenas de quilômetros distante de Minas. 

Todas as referências que encontramos sobre o local eram extremamente positivas e seria um ótimo lugar para ficarmos por uns dias.  De fato, o parque é lindo mas, infelizmente, embora estivesse aberto, ele estava tomado por obras de melhorias e nossa idéia de estendermos a estadia por ali foi por água abaixo.  Somente almoçamos por lá e seguimos direto para a costa.

Chegamos em La Paloma, no departamento de Maldonado, já no cair da noite e dormirmos no estacionamento de um hostel.  No dia seguinte, conversando sobre nossos planos, decidimos que alugaríamos uma casa na costa por alguns dias para termos maior mobilidade com o carro e podermos visitar os diversos balneários da região tendo um ponto de apoio. Isso nos daria um pouco mais de conforto pois caso quiséssemos visitar praias diferentes não teríamos que desarmar e armar o carro todos os dias.

Pesquisamos no AirBnB e encontramos o “Contenedor Rojo”, que reservamos por uma semana.  Uma simpática casa construída em um container no balneário de Buenos Aires, entre Jose Ignácio e Punta del’Este. 

Antes de partirmos de La Paloma, visitamos as praias, o farol, o porto e tentamos, sem sucesso, comprar peixes no mercado local.  Partimos de lá no começo da tarde e em menos de duas horas chegamos em nossa casa temporária, sendo recebidos pelos proprietários, Cristina e Sergio, que são um casal de altíssimo astral. 

A escolha da casa não poderia ter sido melhor; a poucos quarteirões da praia e em meio as àrvores, o container  — que foi adaptado pelas próprias mãos do Sergio e lindamente decorado pela Cristina — é super confortável e aconchegante, contando na área externa com um jardim muito bem cuidado, um pergolado com sofá e mesa e, ainda, uma deliciosa churrasqueira bem ao estilo uruguaio.

Por lá passamos boa parte da semana a ler, comer, bater papo, beber vinhos e desfrutar da companhia de nossos queridos e carinhosos novos amigos, que inclusive nos ensinaram a fazer uma “parrila uruguaia” em uma das agradáveis tardes de sol.  Visitamos, ainda, Jose Ignácio, Punta del Este, La Barra, Manantiales e Laguna Garzon, curtindo esses diversos lugares que, mesmo fora da frenética alta temporada de verão, são tão agradáveis quanto. 

Depois de uma semana maravilhosa no Contenedor Rojo — adoramos esse nome — nos despedimos do Sérgio e da Cristina já com saudades e fomos a Piriápolis. Queríamos conhecer o tão falado balneário que fora totalmente planejado por um visionário italiano no século retrasado e, antes de Punta del Este se tornar o que é hoje, era o principal do Uruguai.

O pôr-do-sol, a praia central e as adjacentes, a longa “rambla” da cidade e o clima são atrativos interessantes e um convite irrecusável à prática de exercícios pela orla.  Acabamos ficando por dois dias lá, dormindo muito bem instalados nos fundos de um posto de combustíveis da Ancap.

Embora breve, curtimos muito nossa temporada pelo litoral atlântico do Uruguai mas ela estava chegando ao fim e era tempo, então, de retomar nossa viagem no ponto que havíamos interrompido há quase vinte dias atrás.   Seguimos, assim, para o outro extremo do Uruguai, cruzando do leste ao oeste pelas rotas Interbalneária e 1 até chegamos a Carmelo, ao norte de Colonia del Sacramento, no litoral do “Rio de la Plata”. 

Nossa visita a Carmelo foi muito rápida, já que a cidade em si não ofereceu muitos atrativos.  Os pontos mais interessantes estavam nos arredores da cidade e depois de passarmos por alguns destes pontos e fazermos uma visita ao Almacen de la Capilla e pela Estância Narbona, passamos a noite na praia da Agraciada.

Esse local histórico do Uruguai, por onde desembarcaram os 33 Orientais desencadeando a guerra da Cisplatina, fica hoje à beira de um camping municipal e no dia em que chegamos estava completamente vazio.  Escolhemos um ponto em meio as árvores para ficarmos e ali fizemos mais um delicioso jantar em plena natureza. Apenas nós, o barulho das pequenas ondas na praia e do vento sacudindo os galhos dos enormes eucaliptos. 

O sol apareceu forte no dia seguinte e aproveitamos a abundância de água do local para darmos um banho no Roots e tirarmos a poeira acumulada de mais de quarenta dias de viagem.  Passamos boa parte da manhã esfregando o Roots e depois dele ficar novo em folha, seguimos para o norte, parando em Mercedes, no departamento de Soriano, e em Las Cañas e Fray Bentos, no departamento de Rio Negro.

Para não seguirmos à noite na rodovia, paramos num posto da Ancap às margens da rodovia logo após Fray e passamos a noite por lá.  Rapidamente nos estabelecemos e fizemos algumas pizzas com nossas tortillas antes de assistirmos um filme e cairmos no sono.

Quando acordamos decidimos seguir alguns quilômetros em jejum e deixamos para tomar nosso café da manhã em uma pequena localidade chamada Nuevo Berlin, às margens do rio Negro e famosa pela produção de mel selvagem em suas ilhas.

Foi uma delícia e já havia passado o meio-dia quando fomos até a cidade de Paysandú para fazermos compras e reabastecermos nossa dispensa e geladeira, que àquela altura já estavam vazias.  Seguimos mais uns quilômetros e havíamos chegado na região de Salto, no noroeste uruguaio, e onde se localiza diversos parques de águas termais — já estávamos próximo a Artigas, por onde havíamos iniciado nossa passagem pelo Uruguai.

Planejamos ficar alguns dias por lá, relaxando nas águas quentes da região antes de cruzarmos a fronteira com a Argentina. Primeiro nos estabelecemos por uns dias nas termas de Guaviyú e depois em San Nicanor, um outro parque termal, onde ficamos mais alguns dias curtindo a tranquilidade do local e aproveitando o belíssimo visual imersos em suas piscinas térmicas.

Era o final de nossa passagem pelo Uruguai e nossa sensação era de que recém havíamos entrado naquele país. Nos quarenta e cinco dias que passamos por lá vivemos todos eles inebriados por uma paz incrível e estávamos num ritmo de tranquilidade absoluta. 

O Uruguai, não pela conhecida política de tolerância ao consumo de maconha, exerce sobre as pessoas uma sensação de entorpecimento inexplicável e parece que dificilmente alguém o deixa sem ter sido vitimado por essa magia relaxante.  Parece que ninguém deixa o Uruguai sem ter se apaixonado pelo país.

E esse foi definitivamente o nosso caso.  Mais do que curtir a paisagem do país, que é bela também, aprendemos aqui a incrível beleza da simplicidade do Uruguai e do seu povo.

As pessoas são encantadoras, recebem e tratam bem, são gentis, educadas, atenciosas e hospitaleiras.  O país se destaca por ter níveis de desenvolvimento cultural e humano elevadíssimos —mesmo entre os mais humildes — e por ser vanguarda no continente sul americano, mantendo-se fiel às suas tradições mesmo diante da irrefreável globalização que parece colocar tudo e todos numa vala comum.

Deixamos o Uruguai com aperto no coração e muito felizes de termos descoberto tantas coisas belas e aprendido um pouco mais sobre as características desse país único e apaixonante.

Muito obrigado Uruguai.

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