O Irresistível Charme do Uruguai – parte 1

O Irresistível Charme do Uruguai – parte 1

Era meados de fevereiro quando deixamos a região das missões.  Saímos ainda de madrugada de Encarnacion, no Paraguai, atravessamos a ponte que liga aquela cidade a Posadas, na Argentina, e seguimos para o sul. 

Nosso plano era chegar ao fim do dia em Corcordia, na primeira das três pontes internacionais com o Uruguai, atravessá-la e pernoitar em Salto. A partir dali exploraríamos o lado oeste do país por alguns dias e, na sequência, reentraríamos na Argentina para descermos a costa atlântica até o Ushuaia, chegando ao “fim do mundo” ainda no verão.

O plano ia bem e antes do fim daquela manhã já havíamos deixado a província de Missiones e entrado na de Corrientes, margeando a fronteira sudoeste do Rio Grande do Sul.  Rasgávamos as extensas retas da Ruta 14, encravadas na região dos pampas argentinos, e por quilômetros e quilômetros tudo que víamos pela janela do Roots eram infinitas pradarias.

Quando o vento soprava e os raios de sol se abatiam sobre elas, os campos se transformavam em um hipnótico oceano dourado e ficávamos acompanhando o movimento perfeito e contínuo de suas ondas até a linha do horizonte.  Esse transe silencioso só era interrompido quando encontrávamos, em meio ao campo, um homem conduzindo enormes rebanhos pelas pastagens e atravessando os riachos da região. A imagem era a expressão mais pura da cultura regional; o solitário homem dos pampas em seu cavalo reluzente, de chapéu, botas, bombacha e lenço amarrado ao pescoço…. o gaúcho por excelência. 

O tempo passava e por horas éramos apenas nós, o dourado dos campos, o azul do céu e o verde dos pinheiros e eucaliptos preenchendo aquela vasta e semi-desértica planície… uma sensação de tranquilidade, quietude absoluta e serenidade foi nos tocando e tomando conta de nós.

Ficamos rememorando a inebriante paz que sentimos quando resolvemos visitar parte do interior do Uruguai no ano anterior, após passarmos alguns dias com amigos no litoral leste.  À medida que reavivámos essas lembranças, a vontade de explorar mais o Uruguai crescia e, assim, tomados pela nostalgia e pelo desejo de não abreviar nossa experiência por lá, mudamos nossos planos. 

Estávamos perto de Paso de Los Libres quando pegamos um desvio para sairmos da Argentina e entrarmos na cidade de Uruguaiana, no Brasil.  Seguimos por uma estrada fronteiriça até a cidade de Artigas, no extremo noroeste do Uruguai para, a partir daquele ponto, começar a rodar o país e explorar seu território.

Focaríamos primeiro no interior, no Uruguai dos costumes e tradições do campo, das raízes e dos heróis anônimos que, além de dominarem aquelas planícies, criaram uma identidade que ultrapassa seus limites geográficos e se mistura em parte com a cultura brasileira e argentina. Após, seria a vez da capital e, finalmente, as cidades litorâneas do famoso e histórico Rio da Prata.

Em Artigas, depois de rodarmos pelas ruas da pequena cidade, resolvemos que nosso primeiro pouso no Uruguai seria no Clube Recreativo Artigas.  Um clube de campo muito simpático que tinha sua enorme piscina como principal atrativo.  Nos estabelecemos na área de estacionamento e aproveitamos a piscina naquele sábado ensolarado junto com boa parte da população da cidade.  Testemunhando o pôr-do-sol e sentimos a temperatura cair vertiginosamente a partir de então.

À noite fizemos um jantar espetacular para celebrar nossa chegada ao Uruguai e tomamos umas duas garrafas de vinho enquanto nos distraíamos acompanhando algumas crianças que foram jogar futebol perto da gente, certamente tomados pela curiosidade de ver uma barraca armada sobre o teto de um carro.

A manhã seguinte chegou sob uma chuva muito intensa e seguimos debaixo dela por quase duas centenas de quilômetros até Rivera, cidade também fronteiriça com o Brasil.  A estrada sob chuva e os campos sob neblina formavam uma paisagem lindíssima.  No caminho passamos pelo Valle del Lunarejo, onde paramos para tirar umas fotos, e visitamos também um enorme monumento equestre à beira da estrada em homenagem a Aparício Saraiva, “o general de duas pátrias”, que morrera por ali em uma batalha no ano de 1904.

Demo-nos conta que estávamos entrando no Uruguai mas não sabíamos quase nada da história do país e, quando chegamos no estacionamento do shopping em Rivera, onde passamos a noite, começamos a pesquisar um pouco sobre o assunto. 

Por horas lemos sobre a história da formação da República Oriental do Uruguai e ficamos fascinados com ela.  Desde a conquista do novo mundo até a redemocratização do país no fim do século anterior, a fartura de fatos históricos é impressionante.

 Os povos indígenas originais — Charruas, Minuanos e Guaranis — dizimados pelos colonizadores europeus, a longa disputa entre espanhóis e portugueses pelo domínio do território, o processo de independência culminando com o grito de Asencio, a conquista da autonomia da província em relação ao antigo Vice-Reino da Prata, a invasão pelas tropas do Brasil e sua incorporação ao futuro Império, a revolta dos 33 Orientais e a guerra da Cisplatina, a Guerra Grande com a vizinha Argentina, a participação na guerra do Paraguai, a imigração europeia, o combate interno e a guerra civil entre “blancos” e “colorados”, os regimes militares e a redemocratização….

Os personagens históricos da “banda oriental” são igualmente interessantes e os principais são seus heróis nacionais como Artigas, Lavalleja, Fructuoso Rivera, Aparício Saraiva e até mesmo o italiano Giuseppe Garibaldi.  Todos eles são muito homenageados pelos uruguaios e tem seus nomes associados a diversas ruas, praças, parques, estátuas, cidades e até mesmo estados do país.

Aliás, os fatos e personagens do Uruguai se relacionam tanto com a história do Brasil que, mais uma vez, nos deparamos com o tamanho da nossa enorme ignorância em relação à formação do nosso próprio País e o quão falho é o processo de educação histórica nas escolas.

Usamos boa parte do tempo em Rivera para ler sobre o Uruguai e passando nos mercados locais para nos abastecer, principalmente de vinhos e queijos.  Com exceção da arquitetura clássica de algumas construções públicas, Rivera não se diferencia muito de outras cidades fronteiriças; bastante comércio eletrônico e de bebida espalhado por toda cidade, placas e mais placas de lojas “duty free” ostentando propagandas de marcas e produtos e muitas casas de câmbio.

De lá iniciamos nossa viagem pela Ruta Nacional n.5, uma rodovia que corta o Uruguai de Norte a Sul exatamente pelo meio do país.  Nessa rota paramos em quase todos os “departamentos”, como são chamados os Estados uruguaios, até chegarmos à capital.  Em linha reta são pouco mais de 500km do norte ao sul, porém levamos vários dias para percorrer essa pequena distância. 

Sem pressa e sem planos, nosso único compromisso era curtir a estrada, aproveitando cada quilômetro desse interior tão interessante e charmoso.  Após Rivera passamos pelos departamentos de Tacuarembó, Durazno, Florida e Canelones antes de chegarmos a Montevideo.  Conhecemos e visitamos sítios históricos e pequenos vilarejos que ajudam contar a história desse país e provam que o encanto uruguaio não está somente na capital. 

Acampamos em lugares lindos como Balneário Iporá, Vale Eden, San Gregório de Polanco, Durazno e Las Piedras.  A cada parada íamos desfrutando da inexplicável sensação mágica que esse país exerce sobre nós, apreciando suas belezas e conhecendo um pouco das tradições uruguaias.

Os elegantes cavalos criollos, os intermináveis rebanhos de hereford espalhados pelas planícies, as belíssimas estâncias, as praças e parques públicos floridos e bem cuidados, os automóveis antigos compartilhando espaço de ruas e estradas com os modernos, o bom gosto da arquitetura, o charme das bodegas, o enaltecimento aos seus heróis e às suas histórias de glórias, o orgulho da pátria “Oriental”, as comidas e vestimentas gaúchas etc….  

As cidades do interior são impressionantemente organizadas.  Elas possuem estruturas básicas para atender ao lazer da população, as casas tem suas fachadas cuidadas e contam em sua maioria com pequenos jardins floridos, a arquitetura dos prédios e casas é orgânica e respeita o seu entorno, as construções são funcionais e de extremo bom gosto, os restaurantes e bares são charmosos e convidativos.  Tudo é bem limpo e bem cuidado.  Com singeleza e praticidade os uruguaios do interior cuidam de seu país com respeito ao passado e abertos ao contemporâneo sem grandes exageros. 

Aliás, se existe algum lugar onde a expressão “menos é mais” é traço característico do seu povo, esse lugar se chama Uruguai.  O país nos pareceu tratar de tudo na medida certa; mantem um equilíbrio impressionante entre o simples e o sofisticado, o passado e o presente, a vanguarda e o tradicional, o antigo e o moderno.

Nos locais onde acampávamos encontramos muita segurança, muita organização, muita limpeza, muita natureza preservada e muita beleza na simplicidade de suas vidas e hábitos. Foram dias de extrema tranquilidade percorrendo o interior, onde desaceleramos totalmente e entramos no ritmo correto que uma viagem desse tipo requer.  

Mesmo em Montevideo, a capital que concentra mais da metade da população, não sentimos a correria louca e desenfreada que normalmente dita o ritmo das grandes cidades e metrópoles.

Apesar de haver outras possibilidades de hospedagem na cidade, resolvemos alugar um apartamento.  Ficamos por alguns dias em Pocitos, um bairro de classe média-alta da cidade, para sentimos um pouco do modo de vida do uruguaio da capital.  Caminhamos pela rambla, fomos à praia, conhecemos alguns de seus charmosos bares e cafés, fizemos compras nos supermercados, visitamos praças e parques, conhecemos as ruas internas desse agradabilíssimo local.

Claro que, em comparação ao interior, as pessoas de Montevideo já demonstram algumas características típicas de quem usufrui de serviços de grandes cidades, assim como já demonstram alguma preocupação em relação à questão da segurança.  Mas, no geral, o povo da capital ainda mantém muitas características básicas do uruguaio do campo e continuamos a sentir o mesmo ritmo calmo e tranquilo do interior.

Devemos também reverenciar a competência e bom gosto dos arquitetos que fizeram de Montevideo uma interminável exposição de arte a céu aberto. As construções simples e as arrojadas, as clássicas e as sofisticadas, as antigas e as modernas são todas dotadas de um traço de beleza indiscutível e se alternam ao longo da cidade .  Ficamos fascinados com suas fachadas estilosas e sóbrias e com o conjunto arquitetônico da cidade, que é invejavelmente belo.  As casas, prédios e praças parecem ter sido projetadas por mãos talentosas de verdadeiros artistas da prancheta.

Depois de alguns dias pela capital seguimos para costa oeste com destino à histórica Colonia del Sacramento. No caminho paramos para conhecer Nueva Helvecia, terra dos deliciosos queijos que havíamos comprado em Rivera no início da viagem. Achávamos que seria uma passagem rápida mas de tão simpática e charmosa decidimos ficar por uns dias, aproveitando bastante a paz e a tranquilidade do local.

A origem da cidade remonta aos tempos da constituição do povo uruguaio, quando no século XIX o país recém liberto dos domínios de espanhol e luso-brasileiro recebeu uma série de imigrantes europeus como forma de ocupar o seu território. 

Uma pequena leva de imigrantes suíços chegou a essa região pelos idos de 1860 e satisfeitos com o que encontraram por lá corresponderam-se com sua terra natal. Na sequência, mais famílias helvéticas emigraram, transformando essa cidade numa pequena colônia suíça em plena América do Sul.

Até hoje, mais de 150 anos após os primeiros imigrantes suíços terem chegado, a influência e as tradições culturais ainda estão muito presentes na vida da cidade, inclusive na arquitetura e culinária; esta última mais do que provada e comprovada depois de tanto visitarmos os mercados locais para comprar os queijos e frios que ainda são produzidos pelas famílias de seus fundadores.

Ficamos acampados no estacionamento de um hotel de campo especializado em receber motorhomes e que é muito bonito. Preparávamos nossas refeições ao ar livre entre as árvores e com vista para uma planície verde incrível, saboreávamos vinhos, líamos nossos livros, íamos caminhar pela cidade, estudávamos um pouco mais sobre a história do Uruguai e interagíamos com outros viajantes que estavam estabelecidos no mesmo local.

Conhecemos uma série de europeus que estavam terminando suas expedições pelas Américas e aguardavam lá a data de embarque de volta de seus carros, via porto de Montevideo.  Ficamos impressionados com o altíssimo nível das “máquinas” que eles estavam trazendo para fazer suas viagens e expedições.  

Ali conosco eram pelo menos umas quatro campers e uns seis caminhões construídos com materiais de primeira qualidade e com acabamentos e tecnologia embarcada que nunca havíamos visto no mercado brasileiro. Isso fora os cerca de quinze ou vinte outros veículos que estavam estacionados por lá, aguardando o retorno de seus proprietários que tiveram que interromper suas viagens e voltar a Europa por questões de visto.

De Nueva Helvecia seguimos então nosso caminho até Colonia del Sacramento, às margens do Rio da Prata. A cidade é história pura, tendo sido fundada por portugueses ainda no século XVII e objeto de conquistas e reconquistas por lusitanos e espanhóis até que se tornou definitivamente uruguaia com o fim da guerra da Cisplatina.

As construções dos séculos XVII e XVIII são abundantes e caminha-se pela cidade como se estivesse em um verdadeiro museu, respirando história no ar. Fortaleza, farol, prédios, portos, escolas, ruas, calçadas e muros… tudo remonta ao passado longínquo, tornando a visita de qualquer viajante num agradável passeio pelo tempo.

Para se ter uma base comparativa, poderíamos dizer que Colonia del Sacramento está para o Uruguai assim como Paraty — famosa cidade histórica no litoral do Rio de Janeiro — está para o Brasil.  Exatamente nas mesmas proporções, essas cidades representam para seus respectivos países um símbolo vivo da sua história colonial.

A cidade é dotada de uma excelente estrutura de gastronomia e hotelaria e, além disso, possui área específica para quem quer acampar ou chegar à cidade de motorhome.  Nós, entretanto, acabamos nos hospedando na casa do Luís, um gentil “landeiro” que conhecemos numa rápida passagem pelo balneário de Sant’ana, poucos quilômetros antes de chegar à cidade.

Estávamos percorrendo as ruas do balneário quando avistamos um outro Defender 110 estacionado e decidimos chegar perto para vê-lo, já que é raro encontrarmos um pelo Uruguai.  Ao nos ver chegando com o Roots, o Luís veio feliz nos cumprimentar e ficamos batendo papo um longo papo sobre os carros, viagens, overlanding etc..   A conexão entre landeiros se estabelecera rapidamente e quando já estávamos de partida, ele ofereceu uma casa que tem em Colonia del Sacramento para ficarmos.

Além da hospitalidade, usufruímos da companhia dessa figura simpaticíssima que compartilhou conosco um pouco da sua visão sobre o Uruguai e sobre o povo uruguaio, mostrando-nos novas perspectivas e pontos de vista muito interessantes. Comandante militar de forças especiais, com uma extensa carreira em missões da ONU, ele nos impressionou bastante com suas histórias e experiências mundo afora e no Uruguai. 

Depois de quase uma semana por lá, ele sugeriu que não deixássemos de visitar a região da serra de Minas, no departamento de Lavalleja.  Pelas nossas pesquisas, lá se encontra a única serra no Uruguai e, de acordo com relatos de outros viajantes, uma das regiões mais bonitas do país.

Sem muito o que pensar, incluímos o destino em nosso roteiro e isso significou, felizmente, mais uns dias de estadia no Uruguai.  Novamente com planos alterados, partimos de Colonia del Sacramento para Minas, atravessando boa parte do país na direção leste.

No caminho fizemos uma parada estratégica de um dia em Canelones para participarmos da festa da uva em uma bodega familiar de vinhos.

A “vendimia” no estabelecimento da família Moizo foi uma das últimas da temporada no Uruguai e tivemos a oportunidade de ver pela primeira vez um evento como esse.  O dia foi ótimo e bastante divertido, teve até apresentação surpresa de uma soprano que também participava da festa. Depois de colhermos e pisarmos nas uvas, era hora do almoço e desfrutamos da prazeirosa companhia de uma turma de brasileiros que estava temporariamente morando no Uruguai. 

Acabamos dormindo na própria bodega a convite da família de proprietários, o que nos foi bastante conveniente porque não tínhamos condições de pegarmos a estrada depois de tanto vinho ao longo das festividades.  No dia seguinte, madrugamos e partimos em direção à serra para explorarmos essa região até então por nós desconhecida e sobre a qual contaremos na segunda parte desse relato…..

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