O Surpreendente Litoral do Piauí

O Surpreendente Litoral do Piauí

Na sequência do Maranhão, nosso próximo destino era o vizinho Piauí, estado muito pouco comentado e explorado em termos turísticos no País.

O Eduardo tem um amigo piauiense, que retornou ao seu estado natal após anos morando no Rio de Janeiro, que sempre disse que ali é um paraíso. Como já estávamos ao lado, resolvemos encontrá-lo e explorar aquela faixa do litoral até então desconhecida para a gente.

Pesquisando um pouco sobre o Piauí, descobrimos que o estado possui a menor extensão de costa dentre os estados litorâneos do Brasil. São cerca de 70km espremidos entre os Lençóis Maranhenses e as famosas praias do Ceará.

Apesar de curto o litoral é bastante badalado já que é frequentado por gente de todo o mundo que vem praticar kite surf entre os meses de Julho e Dezembro. Além disso, o Piauí possui em seu litoral um majestoso ativo natural que é o delta do rio Parnaíba, fazendo parte da chamada “rota das emoções” (Lencóis Maranhenses-Delta do Parnaíba-Jericoacara).

Saímos, então, de São Luís e pegamos a rodovia que vai para os Lençóis Maranhenses. Pouco antes de chegar à cidade de Barreinhas, entramos na nova estrada que liga Barreirinhas a Tutóia e que passa em meio às dunas e lagoas da região dos Lençóis. Algumas poucas dezenas de quilômetros após o fim dessa estrada e atravessamos a ponte sobre o Rio Parnaíba, cruzando então a fronteira com o Piauí.

Impressionou muito a diferença na qualidade da estrada. Enquanto no Maranhão o estado de conservação é péssimo e atravessamos boa parte do Estado em meio a estradas esburacadas e mal conservadas, o Piauí oferece pavimentação imensamente melhor. Bastou cruzarmos a fronteira para começar a deslizar sobre um asfalto de qualidade e bem sinalizado. Não que estivéssemos buscando isso, mas a melhora súbita saltou tanto aos nossos olhos que a comparação tornou-se inevitável.

Rodamos cerca de uns 30km até chegarmos em Parnaíba e depois mais uns 40km até a praia de Maramar, no município de Luís Correia, nosso destino. O caminho para Maramar foi maravilhoso. Visíveis da própria estrada, dunas e extensas praias de areia clara e água límpida chamaram nossa atenção num primeiro momento.

Na sequência ficamos ainda mais maravilhados ao perceber que a praia de Maramar tem a maioria de suas casas ainda pertencendo aos locais e que a área construída é muito pequena em relação à sua extensão territorial. Estamos falando de praticamente uma vila nativa à beira da praia, limitada a leste pelo rio Camuripim, que separa essa praia de Barra Grande, outro conhecido paraíso dos kite surfistas.

A beleza desse pedacinho do litoral piauiense, ainda pouco alterado pelas intervenções do homem, nos impressionou desde o primeiro instante.

Após algumas horas na estrada chegarmos em Maramar e encontramos o Orlando, que nos aguardava já na entrada da praia.

O Orlando é um amigo de longa data do Eduardo, da época em que ele jogava beach tennis em Ipanema quando morava no Rio. Muito divertido e hospitaleiro, quando soube que estávamos por perto e planejando visitar o Piauí, ele ofereceu a casa da família e se dispôs a ser nosso guia e orientador durante essa nova etapa da viagem. Aceitamos o convite mas como estávamos com o Roots, decidimos ficar acampados no quintal da casa.

Tão logo chegamos à casa, o Orlando nos levou para dar um passeio numa balsa pelo rio Camuripim. Foi fantástico. Uma combinação de elementos naturais que nos fez cair o queixo logo no primeiro dia: areia da praia branca e fina, água na temperatura ideal, vento constante, o sol dourado e radiante, vegetação bastante preservada, o mangue à beira do rio…..realmente o paraíso quase selvagem que o Orlando prometera.

No retorno do passeio ainda fomos a uma das dunas, de onde pudemos avistar o pôr-do-sol.

Chegando em casa, sentamos à mesa junto com o Orlando e sua mãe para devorarmos um prato de camarão e combinarmos o que faríamos nos próximos dias. Como não tínhamos planejamento algum, nem para o curto prazo, nos demos o prazer de deixar ao acaso a data em que partiríamos daquele local e, também, de deixar totalmente aberto ao nosso anfitrião as sugestões de programação.

Os dias que se seguiram foram simplesmente fabulosos. Dirigimos o Roots pela beira da praia, visitamos a cidade de Paranaíba, conhecemos o parque eólico da Pedra do Sal, ficamos “de boa” na praia, relaxando na rede, lemos uns livros, curtimos o sol, o vento e o mar singulares da região, comemos muito peixe fresco e caranguejo, vivenciamos diversos poentes, pedalamos, tomamos vinhos, conhecemos muita gente simpática e divertida, tivemos o prazer de conviver um pouco com um casal fora de série (Didi e Climene), recebemos a visita de nossos amigos e anfitriões de São Luís (Rodrigo e Clarinha), além, é claro, de passarmos alguns dias na excelente e divertida companhia do Orlando.

Enfim, as coisas fluíram tão maravilhosamente bem que acabamos ficando apaixonados por aquele litoral e lá permanecemos por 2 semanas inteiras.

Nesse período o Eduardo fez aulas de kite surf. Quase que diariamente íamos até a barraca do Angelim para encontar o Rafael, instrutor de kite.

Com apenas 21 anos o Rafael já veleja há 7 anos e conhece muito bem os ventos da região. Tanto ele quanto seu irmão, Zé Luís, de 17anos, eram muito habilidosos no velejo e deram muitas dicas valiosas para o Eduardo.

Alilás, após tanta convivência com o Rafael e de tanto ele repetir a mesma expressão, nós acabamos pegando seu hábito e passamos a dizer com frequência para tudo e para todos “calma…., vai dar certo” com um sotaque bem característico dele.

E no final deu mesmo. O Eduardo após tanto insistir, tomar vários tombos e beber bastante água do mar aprendeu a velejar. O problema é que ele ficou viciado e não queria mais sair da água.  Antes de ir embora já estava fazendo planos para velejar em outros lugares durante a viagem. Velejar de kite surf foi uma descoberta incrível e, segundo ele, a sensação de deslizar sobre as águas controlando a pipa é quase que entorpecente.

Ao cabo da primeira semana, nosso anfitrião Orlando teve que partir por conta de compromissos profissionais mas mesmo assim continuamos com o Roots baseados no quintal de sua casa e na companhia de seu primo, Roberto, o qual foi extremamente gentil conosco e nos deu um belíssimo suporte enquanto estávamos por lá.

Estava tudo indo tão bem e o local era tão aprazível que resolvemos convidar nossas mães para nos visitar lá. Elas estavam muito saudosas e já tinham manifestado interesse em fazer o passeio pelo delta do Parnaíba, então, nada melhor do unir o útil ao agradável. Em poucos dias resolvemos toda a logística e fomos até Fortaleza (450km) para buscá-las no aeroporto e trazê-las até uma pousada em Maramar.

Como a mãe da Samira teve problemas com o embarque em São Paulo, ela acabou chegando em Fortaleza somente à noite e resolvemos dormir por lá mesmo para evitar a viagem noturna e apenas na manhã seguinte fizemos o trajeto de volta. Deu tempo de parar para tomar agua de côco, tirar algumas fotos na estrada, botar o papo em dia.

Foram 6horas de viagem e ao chegarmos em Maramar fomos direto para a praia para comermos um peixe e curtirmos o pôr-do-sol.

Elas ficaram hospedadas numa pousada exatamente em frente onde nós estávamos e após se instalarem por lá foram nos encontrar em nossa casa para o jantar.

A noite foi uma delicia. Acompanhados de salada, peixe e vinho, conversamos bastante e contamos as experiências que havíamos tido até então na nossa viagem. Claro que a curiosidade delas também tinha um pouco de preocupação, mas ficamos com a impressão de que já ao final do primeiro dia elas ficaram mais tranquilas ao conhecer um pouco mais sobre a nossa rotina e os cuidados que tomamos na viagem com a nossa segurança.

Elas retornaram a São Paulo e Rio de Janeiro felizes por terem nos encontrado e maravilhadas, tal como nós, com a calma e a rusticidade do local. Ficaram maravilhadas, também, com o passeio de barco que fizemos pela foz do rio Parnaíba.

No penúltimo dia da estada delas, alugamos uma embarcação para fazermos um passeio de dia inteiro pelo delta. Percorremos uma pequena parte desse rio que é tão bonito e tão importante para o estado do Piauí. Ele nasce no sul, bem perto da fronteira com Maranhão e Tocantins, e percorre praticamente o tereitório inteiro até desaguar diretamente no Oceano Atlântico.

Foi realmente fantástico andar de barco pelos igarapés, mangues, dunas e ilhas fluviais que o rio Parnaíba contém.

Acompanhamos, também, a revoada dos guarás (uma ave típica desse litoral e de cor bastante forte) que, no fim de tarde, costumam pousar numa ilha para passar a noite afastados de seus predadores. A ilhota, originalmente verde por conta das copas das árvores, vai tomando uma coloração avermelhada fluorescente com a chegada das centenas e centenas de aves que por lá pousam.

No retorno ainda tivemos a felicidade de navegar admirando, simultaneamente, o pôr-do-sol e o nascer da lua cheia, os quais transformaram não só o céu mas também as águas do rio em um show de luz e cores. Cada qual com sua magnânima beleza, Sol e Lua fizeram do retorno do passeio uma experiência inigualável, que tivemos o prazer de compartilhar com nossas mães.

Definitivamente o litoral do Piauí, apesar de geograficamente curto, é um local que merece ser reconhecido pela extensão do prazer que pode proporcionar aos seus visitantes. Sentimos uma energia muito boa naquele local.

Além disso, a simpatia e disponibilidade do povo pauíense é algo que merece igual valor. Tanto em Parnaíba quanto em Luis Correia e Barra Grande (distrito de Cajueiro da Praia) as pessoas são extremamente gentis e sentimo-nos muito bem tratados e acolhidos por todos, sem exceções.

Aliás, sobre isso é preciso dedicar um especial agradecimento ao casal Didi e Climene, que foram pessoas incríveis que conhecemos nessa viagem. Essas duas personagens são figuras que encheram nossa estadia de alegria e energia positiva. Nos receberam muito bem em Parnaíba e Barra Grande e foram extremamente gentis e divertidos.

O Didi, com sua inseparável cachaça e seu bom humor infinito, e a Climene, com sua tranquilidade e delicadeza, contribuíram em muito para tornar ainda mais maravilhosa nossa estadia no Piauí e nos proporcionaram muitas, muitas gargalhadas.

Com uma mentalidade extremamente jovem, esse casal que já completou bodas de ouro soube muito bem envelhecer, mantendo uma leveza e alegria contagiantes. Um exemplo a ser seguido por todos.

Mas enfim, ao final das 2 semanas de estada no Piauí tivemos que partir. Sinceramente não queríamos e foi com muito pesar que o fizemos.

O fato é que tínhamos que dar sequência a nossa viagem e precisávamos, também, levar o Roots para um diagnóstico geral. Já estávamos há quase 2 meses na estrada e tínhamos mais de 8mil quilômetros rodados, muitos dos quais em condições pesadas como o Jalapão e a trilha para o Lavado do Louro nos Lençóis. Por questão de segurança precisávamos fazer esse check-up e uma manutenção preventiva em nosso companheiro de viagem.

Como tínhamos em Fortaleza uma excelente referência de mecânico, dada pelo nosso amigo Ricardo Poccholo, partimos para o Ceará mais uma vez, mas com a firme promessa de ainda voltar ao Piauí em alguma data próxima.

Na véspera da partida, após mais um belíssimo dia de praia, resolvermos fazer um pedal de despedida pela cidade ao pôr-do-sol para celebrar aqueles dias maravilhosos que passamos nesse fabuloso recanto genuinamente brasileiro.

Na manhã do 14º dia, desfizemos nosso “acampamento”, nos despedimos do Roberto, que tão gentilmente nos acolheu após a partida do Orlando, e seguimos em direção à Parnaíba para dar um abraço no Didi e na Climene antes de pegarmos à estrada com destino à Fortaleza.

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