O Caminho até a Primeira Fronteira

O Caminho até a Primeira Fronteira

Passado o período de teste e ajustes, que perdurou cerca de 7 meses pelo Brasil, e com um mês de atraso em relação ao planejado inicialmente, finalmente demos início à nova fase da viagem.   Mais cautelosos em relação a planos, essa nova fase foi dividida em etapas e a primeira delas será um giro pela América do Sul. 

Já temos uma idéia de rota. Não estamos pretendendo transformá-la numa norma rígida e inflexível, já que certamente ela mudará bastante ao longo da viagem, mas precisávamos de um plano inicial para não ficarmos vagando a esmo pelo continente.

Saímos de São Paulo no dia 31 de janeiro de 2019 e fizemos uma rápida parada em Curitiba para encontramos nossos amigos baianos, Rafael e Larissa.  Eles estavam trabalhando em seu carro na Turiscamper, do simpático Fábio, e resolvemos ficar por lá uns dias para ajudá-los e aproveitamos para fazer o que imaginávamos ser nosso último ajuste no carro; fazer uma ligação direta entre a geladeira e a bateria para eliminar a perda de eficiência energética que estávamos percebendo no Roots.

Após muito churrasco e vinho, partimos com destino à Foz do Iguaçu, por onde sairíamos do Brasil.  A distância entre Curitiba e Foz é de quase 700km e foi toda feita pela BR277, uma rodovia de excelente qualidade.  Ao longo do caminho ficamos impressionados com a capacidade dos paranaenses de aproveitarem cada espaço disponível para exploração da atividade agrícola.

De Guarapuava até Foz do Iguaçu vimos cada centímetro de terra sendo utilizado para culturas de milho, feijão e soja. E entenda-se cada centímetro como literalmente cada centímetro.  As plantações se estendiam por toda área disponível e iam de onde nossa vista alcançava até o acostamento da estrada.  Os gigantescos e infindáveis silos ao longo da rodovia nos davam uma idéia da capacidade produtiva da região.

Chegando em Foz do Iguaçu após quase um dia inteiro de viagem, nossos planos eram ficar por cerca de quatro ou cinco dias estabelecidos num camping, fazendo passeios para explorar as belezas da região.

O primeiro deles foi nas colossais quedas d’água do Parque Nacional das Cataratas do Iguaçú.  A força e o volume dessas quedas são descomunais e nos deixaram embasbacados.  Impressionou-nos, também, a forma com que o Brasil foi capaz de transformar essa natureza bruta em uma atração turística preservando o equilíbrio ecológico e sem necessariamente destruir o ambiente no seu entorno.

O parque é extremamente bem organizado e toda sua estrutura é construída para que haja o mínimo possível de impacto ecológico por conta das visitações.  A quantidade de pessoas que visitam o parque por ano é enorme mas tudo continua perfeitamente organizado e bem administrado, sem qualquer agressão e dando um grande exemplo de desenvolvimento econômico em harmonia com o meio ambiente.

Depois fomos visitar a também colossal hidroelétrica bi-nacional de Itaipú. A magnitude de seu tamanho nos deu uma noção do quão gigantesca deve ter sido a obra nas décadas de 70 e 80.  Desviar o leito do rio Paraná, o oitavo maior em volume de água no mundo,  e depois construir a represa não deve ter sido uma tarefa das mais fáceis.

Rodamos de ônibus ao longo de toda a hidroelétrica e ficamos impressionados com a pujança e a imponência das suas instalações.  Assim como nós, certamente os mais de 21milhões de visitantes de quase 200 países que já passaram por lá também devem ter achado que a construção é um dos ícones da engenharia humana no mundo.

Outra coisa que a hidroelétrica prova é que com vontade política e interesse genuíno, nações sul-americanas podem trabalhar juntas para aumentar seu nível de desenvolvimento econômico e melhorar as condições de vida de toda uma região. Nesse ponto, Brasil e Paraguai deram um belo exemplo de trabalho conjunto pouco mais de um século após a guerra que colocou os países em lados opostos no final do século anterior.

De volta ao camping, conhecemos um casal de Brasília que havia acabado de chegar de uma viagem de dois meses por Bolívia, Chile, Argentina e Paraguai. Pegamos dicas valiosas com eles, principalmente sobre a região das missões jesuíticas entre Paraguai e Argentina.  Esse tema despertou muito o interesse e depois de bastante curiosidade e pesquisa resolvemos que iríamos visitar as ruínas de San Ignacio, Jesus e Trinidad e começar por essa zona histórica a exploração da América do Sul.

Já quase no final de nossa estadia, os amigos baianos chegaram a Foz do Iguaçu e se estabeleceram no mesmo camping que nós.  Fomos juntos a Ciudad del’Este para conhecer um pedacinho do Paraguai e descobrimos o caos que é aquela fronteira e o formigueiro humano que se tornou aquela cidade.   

Estávamos na véspera de nossa partida e o Roots deu o primeiro sinal de que não estava afim de deixar o Brasil tão cedo.   As duas bombas d’água que temos no carro resolveram parar de funcionar.  Elas já haviam apresentado problemas antes e apesar de termos voltado a Santa Catarina para resolver essa questão, ela insistia em não nos abandonar. 

A razão de termos duas bombas d’água no carro é exatamente para redundância, ou seja, em caso de uma apresentar defeito a teríamos uma segunda opção. Mas as duas pararem simultaneamente não fazia parte dos nossos planos, nem nos cenários mais pessimistas.

Não bastasse isso, a bateria estacionária, que armazena a energia para uso da casa, deu alguma pane e não estava mais segurando a carga.  Sem ela em perfeitas condições, teríamos que ficar o tempo todo ligados na rede externa ou com o carro ligado para ter energia para, no mínimo, nossa geladeira funcionar.

Como estávamos longe de Araquari (SC), rodar mais de 1.000km para voltar à empresa que fez as adaptações no Roots e consertar esses problemas não era uma opção.  Rodamos em Foz do Iguaçu atrás de alguém que pudesse nos ajudar mas todos os técnicos que visitamos declinaram do serviço por acharem que tomaria tempo demais e que seria muito complicado mexer num “motorhome”.

Como não tínhamos opção, o jeito foi meter a cara e tentar resolver. O Eduardo estava muito inseguro mas contou com o apoio da Samira, o suporte do Rafael, que já tinha adquirido alguma experiência construindo o Polenguinho, e do Fábio da Turiscamper, um anjo que remotamente auxiliou em absolutamente tudo.

Depois de mais de dois dias trabalhando e algumas horas em chamadas de vídeo, finalmente conseguimos identificar os problemas e resolver as pendências elétricas e hidráulicas que tínhamos. Tivemos que substituir a bateria estacionária, que ainda estava na garantia, compramos uma bomba d’água nova e refizemos todas as instalações.

Pessoalmente, isso foi uma vitória muito importante para o Eduardo. Nesse episódio ele teve que se aventurar nos mundos, até então desconhecidos, da elétrica e da hidráulica para solucionar o problema e ficou muito orgulhoso e satisfeito com o resultado.

A questão foi que, ao invés dos cinco dias iniciais em Foz do Iguaçu, acabamos ficando onze no camping e a essa altura o plano de chegar no Ushuaia no ápice do verão já fazia parte do passado.  Estávamos no meio de fevereiro e já que o “acaso” havia mudado nossos planos, decidimos relaxar e aproveitar.  Quisemos mudar para ficar um dia em um outro local para renovar as energias antes de atravessar a fronteira.

Encontramos, ao acaso, um hostel de containers charmosíssimo bem próximo ao camping e contratamos o “day use”. O Tetris Container Hostel foi uma magnífica surpresa e passamos duas noites dormindo no carro na frente do local e aproveitando a calma e a tranquilidade do hostel para ler nossos livros e replanejar nossos próximos passos.

Apesar das surpresas desagradáveis, ao final dessa pequena saga de dezessete dias entre a saída de São Paulo e o transpor da primeira fronteira, o saldo foi extremamente positivo.  Como já dito em algum outro relato no site, as dificuldades são muito benvindas e, ainda mais, as soluções que precisamos encontrar em decorrência delas.  Saímos mais conhecedores do Roots e mais confiantes que seremos capazes de vencer as outras dificuldades que ainda estão por vir.

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