História na Região das Missões

História na Região das Missões

Depois de saírmos de São Paulo e ficarmos alguns dias no Paraná, na região da fronteira tríplice (Argentina, Brasil e Paraguai), adentramos no território argentino pela cidade de Puerto Iguazu.  Não fosse pelas barreiras migratórias e alfandegárias, a diferença entre Foz e Puerto quase não se faria notar.  Ambas ficam às margens do rio Paraná e possuem tanto clima quanto vegetação muito similar, além de contarem com grandes áreas preservadas e de parques nacionais. 

Seguimos pela Ruta 12, entrecortando uma parte do caminho com densa e fechada vegetação verde e com alguns “pueblos” majoritariamente compostos pelos descendentes diretos do indígenas que habitavam originariamente a região.  Nossa impressão era de uma atmosfera ainda bastante primitiva, nos remetendo imediatamente ao tempo passado. Enquanto passávamos pelos povoados ficamos imaginando que há séculos os ascendentes daquelas pessoas dominaram a região e desbravaram as florestas e os rios dali sem nenhuma das ferramentas modernas que hoje detemos. A sensação de quase voltar no tempo e conseguir visualizar isso foi alucinante.

A estrada seguiu atravessando outros pequenos povoados na província de Missiones e chegamos a ElDorado, onde havíamos planejado passar a noite. Na ausência de opções de camping, decidimos por alugar um chalé nas redondezas. 

O local era simples mas bastante aconchegante e confortável o suficiente para passarmos uma bela noite de descanso.  Foi nossa primeira noite em quase 20 dias num quarto de verdade. E foi tão bom que no dia seguinte acordamos quase ao meio-dia.

Continuamos pela mesma estrada com objetivo de chegar ao nosso destino, a cidade de San Ignácio, a primeira na rota das missões para quem a começa pela Argentina.

Nosso interesse nessa rota foi despertado por um casal de Brasília que havíamos conhecido no camping em Foz do Iguaçu. Eles haviam falado das ruínas das missões jesuíticas na Argentina e no Paraguai e, como conhecíamos muito pouco (ou nada) sobre o assunto, resolvemos aproveitar e conhecer mais sobre esse aspecto histórico da região.

O primeiro dos sítios visitados foi o de San Ignácio Mini. Com um grande trabalho de arqueologia e restauração, as ruínas encontram-se em um bom estado de conservação e o museu e as demais estruturas para visitantes permitem ter um bom nível de informação para se ter noção do que foi a experiência jesuítica em toda a região e seus aspectos sociais, culturais e históricos.

Aprofundamos nossa curiosidade e estudamos um pouco mais sobre a riquíssima história e geografia local.  De tudo que lemos e que pudemos conhecer “in loco”, a grande lição que ficou foi o tamanho de nossa ignorância em relação à parte de nossa própria história e a reflexão sobre o tamanho da capacidade destrutiva do homem dito “civilizado”.

Por toda a área que hoje é conhecida como tripla fronteira (ou quádrupla, se considerarmos também o Uruguai), não havia divisões políticas e ela era habitada praticamente apenas por povos que viviam nas e das florestas, convivendo em equilíbrio e harmonia com a natureza e dela extraindo, por meio de silvicultura e caça, apenas o necessário para sobreviverem.

Durante séculos o povo guarani foi o senhor da região e reinou absoluto até que o homem branco europeu chegou ao “novo mundo” no século XVI e acabou com toda a ordem até então existente e modificando, em pouco mais de 300 anos, praticamente todos os aspectos sociais, culturais e ambientais da região.

Especificamente sobre as missões, a história dá conta que no começo do século XVII, através da Companhia de Jesus, padres saíram da Europa em missões de catequização dos índios e se instalaram na região formando algumas vilas.  Com arquitetura bastante semelhantes entre si, essas vilas foram denominadas “reduções” (ou “reduciones” em espanhol) e eram formadas por um quadrilátero delimitado por edificações de pedras constituídas, basicamente, por igreja, campanário, escola, oficinas de trabalho, residências para índios e jesuítas, hortas, praça central e cemitério.

Por cerca de dois séculos várias reduções foram criadas e administradas pelos missionários jesuítas na região. Algumas dessas reduções eram tocadas por dois ou três padres missionários apenas e contavam com um número relevante de indígenas (entre 2 e 6 mil), que deixavam seu habitat original e iam viver nessa nova forma de organização social.  Ao mesmo tempo que eram catequizados pelos missionários, aprendiam idiomas, ofícios, artes e técnicas de agricultura.

Por conta de alguns conflitos de interesse, inclusive com bandeirantes que atacavam essas missões e tentavam escravizar os índios que lá habitavam – curioso observar o contraste histórico com a versão brasileira mais romântica sobre as expedições bandeirantes no interior do continente –, os jesuítas foram proibidos pela coroa espanhola de permanecer em seu território ultramarino e, então, abandonaram as missões no final do século XVIII, que, com o passar do tempo e as intervenções humanas, se tornaram as ruínas que hoje podem ser visitadas tanto na Argentina quanto no Brasil e no Paraguai.

O povo indígena da região foi tendo seu território e suas liberdades suprimidas e em alguns casos escravizados ou obrigados a trabalhar nas terras que passaram a ser de propriedade dos conquistadores do novo mundo.  Essas terras, atualmente, viraram cidades e fazendas — ou estâncias, como denominadas na região — e até hoje o povo nativo vive em sua grande maioria à margem da sociedade. 

Uma pena que nos bancos de escola muito pouco tempo seja dedicado para essa passagem histórica e para o estudo da cultura dos índios que habitavam este continente antes da chegada dos colonizadores.  Um estudo menos superficial sobre o tema certamente despertaria mais – e mais cedo – o interesse e a curiosidade dos estudantes sobre os traços culturais do povo nativo de nosso continente e, também, estimularia uma maior valorização e respeito ao seu modo de vida.

Mas enfim, voltando a nossa viagem…. estávamos em San Ignácio e nossa geladeira estava praticamente vazia de vegetais.  Como havíamos consumido tudo ainda no Brasil para evitarmos transtornos nas fronteiras, antes de nos estabelecemos na área de camping do Hostel San Ignacio, passamos por uma mercearia para comprarmos comida de verdade. 

As frutas, legumes e verduras estavam simplesmente fantásticas.  Todas expostas de forma bem simples, como era a mercearia, mas reluziam de tão belas e coloridas que eram.  Compramos ovos, pêssegos, uvas, ameixas, maçãs, tomates, abobrinhas…. e tudo estava delicioso.

Antes de partir de San Ignácio ainda voltamos à mercearia para comprarmos tudo que podíamos e abarrotarmos nossa geladeira com esses vegetais de extrema qualidade e gosto. Além de bastante barato para padrões brasileiros, esse é o tipo de alimentação que nós queremos consumir durante a viagem; local e saudável.

Partimos então para Posadas, capital da província de Missiones, de onde atravessaríamos para o Paraguai para explorar as missões do outro lado da fronteira. Antes, porém, paramos em Nossa Senhora de Loreto, onde há ruínas de uma outra missão jesuítica.

Estas ruínas, ao contrário de San Ignácio Mini, estão em seu estado natural e, propositadamente, com poucas intervenções de restauração.  Loreto não conta com uma grande estrutura para recepção de turistas e, por isso, talvez seja uma das menos visitadas, porém, em termos de importância histórica e tamanho, essa missão supera a vizinha.

Outro ponto positivo na missão de Loreto é que, devido à pouca procura turística, é possível receber uma atenção especial da guia local e, no nosso caso, que éramos os únicos naquela manhã, tivemos um tour de quase duas horas, recebendo explicações detalhadas sobre diversos aspectos históricos e muitas curiosidades.

A visita valeu muito não só pelo sítio arqueológico, mas também pela aula particular de história que tivemos e pela beleza natural do local onde as ruínas se localizam.  No meio de árvores frondosas que cresceram onde antes haviam as edificações da missão, a atmosfera e o silêncio do local criam um ambiente propício para que o visitante tenha a exata sensação de como era a vida na época e sinta uma experiência histórica mais verdadeira, sem contaminação turística. Enfim, Loreto foi uma visita inesperada e extremamente proveitosa.

Chegando em Posadas no meio da tarde encontramos a cidade quase que deserta.  Como é costume em toda a província, a “siesta” parece que fez a cidade inteira adormecer e não víamos ninguém nas ruas e quase todos os estabelecimentos fechados.  Rodamos bastante pela cidade e cruzamos praticamente toda a avenida Costanera, a via litorânea que acompanha o rio Paraná desde o começo até o fim da cidade, sem encontrar quase nada aberto.

As pesquisas sobre o Paraguai nos deixaram bastante animados mas decidimos que só cruzaríamos a fronteira na manhã do dia seguinte para aproveitarmos mais a visita ao país vizinho. Decidimos, também, que dormiríamos dentro do Roots naquela noite.  

O local escolhido foi na avenida Costanera em frente à praia do rio Paraná, que conta com uma razoável estrutura de banheiros públicos.  Apesar do calor infernal que passamos na noite, não poderíamos ter escolhido melhor local. Pela manhã, da janela de nosso carro pudemos testemunhar a lua cheia ainda reluzindo sobre as calmas águas do rio Paraná enquanto o sol começava a surgir e fazer seus raios brilharem do outro lado da margem. 

O espetáculo de cores foi incrível. Saímos para tirar fotos e tentar registrar o espetáculo de cores que presenciávamos, mas, como nossas habilidades fotográficas não são boas o suficiente, não conseguimos capturar esse esplendor todo através de nossas câmeras. Pelo menos em nossas retinas e memórias essas imagens ficarão gravadas por um bom tempo.

Cruzamos a ponte internacional e ao chegarmos no Paraguai nos surpreendemos ainda mais com o que vimos e o que aprendemos.  Passamos o inicial e caótico mercado fronteiriço de Encarnacion e pegamos a Ruta 6, em direção aos sítios arqueológicos de Santíssima Trinidade do Paraná e de Jesus de Tavandaré, a cerca de 70km dali.  

As ruínas das missões naquele país estão em excelente estado de preservação.  Se compararmos com o que vimos na Argentina ficamos até envergonhados em chamar as missões paraguaias de ruínas.  Praticamente todas as edificações mantém suas paredes e estruturas quase que intactas e por isso consegue-se ter, visualmente, uma percepção muito melhor de como era a arquitetura dessas experiências sociais. Os aspectos históricos são basicamente os mesmos mas a arquitetura é de tirar o folêgo. Para quem quiser um dia conhecer “in loco” essa história, a visita ao Paraguai não pode passar em branco.

Seguimos adiante mais alguns quilômetros pela Ruta 6 até chegarmos ao Parque Manantial, outra agradável surpresa no Paraguai. O local pertence a um casal local cuja ascendência alemã não deixou dúvidas não só quando nos encontramos mas também quando vimos toda a funcionalidade e organização do estabelecimento.

Originalmente uma fazenda, o casal Rubem e Carla e seus filhos conseguiram construir uma estrutura para viajante algum botar defeito. Áreas de camping bem cuidadas e arborizadas, lagos, nascente d’água, piscinas, banheiros confortáveis e limpos, churrasqueiras… tudo muito limpo e muito prático.  Ainda tivemos a sorte de chegarmos lá às vésperas de um “Encontro de Cordas” e pudemos aproveitar nossa estadia também escutando música boa à noite.

Outra coisa que pudemos aproveitar também foi a fantástica hospitalidade e gentileza oferecida pela família.  Além de termos sido convidados para almoçar com eles um delicioso arroz de carreteiro e batermos um bom papo, o Rubem foi extremamente atencioso conosco nos levando em lojas para comprarmos peças de reposição para nosso sistema hidráulico, que havia se rompido logo que chegamos no Parque ao passarmos por um obstáculo no caminho.

Como nossas caixas d’água inferiores são interligadas por um cano que fica abaixo do nível do chassi, essa interconexão fica mais exposta e nesse obstáculo que tivemos que transpor ela não resistiu ao impacto e cedeu. Resultado, o Eduardo teve que ir para baixo do carro para retirar as peças danificadas, substituir por novas e refazer a conexão e sua proteção.

Reparado o problema, reabastecemos o carro com a água e relaxamos nas instalações do Parque Manantial antes de retornarmos a Encarnacion, onde passaríamos a noite para cruzarmos ainda de madrugada a fronteira da Argentina e seguirmos nosso caminho até o Uruguai, onde pretendemos explorar a tranquilidade, a boa comida e os bons vinhos de lá.

Foi uma belíssima experiência cultural que vivenciamos, conhecendo um pouco da história dessa região.  Saímos muito enriquecidos e com a certeza de que termos flexibilidade no roteiro e estarmos abertos às oportunidades de conhecimento que a viagem nos ocasiona compensa muito.

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