Cruzando o Sertão do Nordeste

Cruzando o Sertão do Nordeste

Nosso plano ao deixarmos o Piauí era atravessar a fronteira com o Ceará e continuar destrinchando a costa do nordeste até a Bahia, onde entraríamos para o interior e começaríamos a explorar a Chapada da Diamantina. Esse era nosso planejamento que fora originalmente traçado quando ainda estávamos em São Paulo e que acreditávamos, àquela altura, que o cumpriríamos fielmente por fazer todo sentido sob a perspectiva logística. Para esse trecho da viagem, a única coisa que havia sido programada era uma parada em Fortaleza para fazer uma revisão geral no Roots. O resto deixamos ao acaso e a nossa conveniência e vontade.

Seguindo nosso plano original, agendamos a revisão do Roots e no dia 28 de Agosto partimos de Parnaíba com destino a Fortaleza, deixando o Piauí para atrás. Foram 2 semanas mágicas naquele pequeno litoral mas que uma hora teria de terminar pois nossa viagem precisava seguir adiante.

Foram 450km de estrada e 6hs de viagem até chegar à capital do Ceará. Ao cruzarmos a fronteira já começamos a sentir saudades do Piauí pois, assim como no Maranhão, a qualidade do asfalto da estrada é bem ruim.  A estrada só começou a ficar boa cerca de 200km antes de Fortaleza.

Já era noite quando chegamos em Fortaleza e fomos direto ao encontro do Daniel, um amigo do Eduardo que está estabelecido lá faz alguns anos e que seria nosso anfitrião em Fortaleza. Ele é sócio em um negócio que tem como foco cervejas artesanais e estava trabalhando até mais tarde naquele dia então nos encontramos lá e após um rápido bate-papo degustando uma das deliciosas cervejas de seu cardápio rumamos para sua casa onde ficaríamos hospedados. Fomos super bem recebidos por sua esposa, Joyce, e as crianças mas logo após o jantar fomos nos recolher para descansar do dia da estrada.

Já no dia seguinte acordamos cedo e logo pegamos a estrada até Caucaia, município vizinho a Fortaleza, onde encontraríamos o Lucien, um mecânico indicado pelo nosso amigo Ricardo Poccholo para fazer a revisão no Roots.  Nossa primeira impressão quando chegamos ao local marcado nos gerou uma certa apreensão pois as instalações onde ele iria fazer o serviço (no quintal da sua casa) não eram as mais apropriadas. Estava tudo bem bagunçado e a área onde ele morava não nos inspirara muita sensação de segurança.

Como o Roots não entrou na casa por conta da altura (a nossa barraca de teto deixa o carro bem alto), o Lucien nos levou até a oficina de um amigo, onde as instalações eram mais apropriadas e tivemos bastante espaço para trabalharmos ao longo do dia.

Aliás, vale a pena mencionar que apesar da primeira impressão o Lucien nos surpreendeu muito e foi uma gratíssima surpresa. Fomos até ele no escuro, confiando na indicação e sem saber o que esperar. Ao final, saímos satisfeitíssimos com o seu trabalho, sua honestidade e transparência, além da competência demonstrada.

Ele é um holandês que cuidava de mecânica de motores à diesel em seu país natal e depois que conheceu o Ceará em uma viagem de turismo não quis mais voltar a Europa. Já havia morado na África e na Austrália mas parece que foi no Brasil que ele se encontrou. Montou seu negócio, casou-se, teve filho e agora atende os clientes proprietários de Land Rover através de agendamento prévio.

Ficamos o dia inteiro na oficina e após trocarmos todos os fluídos, óleos, apertarmos todos os parafusos, avaliarmos motor, suspensão, freios etc… basicamente só tivemos que substituir uma bucha da suspensão dianteira.  As únicas coisas pendentes foram a substituição do pivot central do eixo traseiro e da correia do alternador, que ainda precisariam ser comprados mas que poderiam ser trocados mais à frente.

Saímos com o Roots bem redondinho e pronto para dar continuidade à viagem sem maiores preocupações. Apesar dos 8mil quilômetros percorridos e dos trechos pesados enfrentados, principalmente no Jalapão e na trilha para os Lençóis Maranhenses, o carro apresentava um excelente estado de conservação e, segundo o Lucien, com as devidas manutenções preventivas o Roots continuava inteiro para rodar centenas de milhares de quilômetros. Estávamos preocupados e a convicção dele em atestar o estado do Roots nos tirou um peso enorme das nossas costas. Levamos, ainda, o Roots para um merecido banho.

Assim foi o primeiro dia em Fortaleza; todo na oficina e, apesar de cansativo, muito positivo. Retornamos felizes para casa de nossos anfitriões e na companhia deles passamos a noite batendo papo enquanto degustávamos cervejas artesanais e ouvíamos boas músicas selecionadas pelo Daniel, uma de suas grandes aptidões.  Havia tempo que o Eduardo não se encontrava com o Daniel e foi muito bom reencontrá-lo e conhecer sua família.

No dia seguinte, ainda em Fortaleza, resolvemos todas as pendências que ainda tínhamos; passamos no auto-elétrico para resolver um problema da barraca, na distribuidora de auto-peças para adquirir as correias e na loja onde havíamos deixado nosso drone para reparo. Fomos ainda ao supermercado para repor nossa dispensa e nos preparar para a longa viagem que resolvemos fazer no dia seguinte.

Pois é…. Como já dito em algum post anterior, a única coisa permanente em nossas vidas é a mudança e apesar de nosso planejamento original resolvemos alterar nosso plano para ir até Maceió cruzando o sertão nordestino. A razão disso foi que um casal muito amigo nosso, Cassandra e Diego, estaria em Alagoas por motivos profissionais naquela semana e nós decidimos então prestigiá-los indo ao seu encontro e passando alguns dias com eles.

Em outras palavras, ao invés de fazer o normal e descermos a costa do Brasil, explorando as praias do Ceará, do Rio Grande do Norte, da Paraíba, de Pernambuco, de Alagoas e de Sergipe até chegarmos à Bahia, nós resolvemos cruzar 4 estados numa tacada só, perfazendo uma distância de quase  1.000km.  Um contra-senso aparente mas, como estamos abertos nessa viagem a cenários e possibilidades diferentes e, também, como estávamos fazendo isso para encontrar amigos queridos, para nós a mudança nos nossos planos estava mais que justificada.

Assim, nossa terceira e última noite em Fortaleza foi de despedida e fomos com o Daniel e a Joyce a um delicioso restaurante japonês. Com alguns pratos exóticos e bem saborosos, além de alguns saquês, celebramos a noite com o casal e fizemos nossa despedida combinando que no retorno ao Ceará marcaríamos um novo encontro em alguma praia próxima para passarmos uns dias curtindo o litoral e praticando kite surf.

No dia seguinte arrumamos as coisas e pegamos a estrada logo pela manhã, passando pelo litoral leste do Ceará e cruzamos a fronteira com o Rio Grande do Norte. Até pouco antes de Mossoró a viagem pelo litoral foi bem tranquila e sem muita mudança na paisagem. No entorno de Mossoró pegamos um desvio e seguimos por duas rodovias estaduais (RN233 e RN118) que começavam a cruzar o sertão.

Essas estradas cortava o Rio Grande do Norte bem pelo meio e nos forneceu imagens incríveis dando uma boa idéia do que seria o Sertão do Brasil, algo que era totalmente novo para nós. O problema foi que boa parte do asfalto nas rodovias estaduais do RN estava terrivelmente esburacada e apesar desse trecho de cerca de 250km ser muito bonito ele atrasou muito nosso cronograma.

Em especial os últimos 80km, onde cruzamos a fronteira com a Paraíba, levamos muito tempo e ficamos muito preocupados com a segurança.  Além de ser uma estrada semi-deserta e muito mal conservada ainda tivemos um problema com o farol que do nada parou de funcionar… sobrou só a lanterna e o farol de milha para enfrentar a estrada escura e esburacada.

Assim que cruzamos a fronteira resolvemos parar em Santa Luzia e pernoitar num hotel de beira de estrada. No dia seguinte acordamos bem cedinho e pegamos a estrada ainda debaixo de uma pequena névoa e uma temperatura bem fria. Estávamos numa serra e a Samira chegou a vestir um casaco no começo da manhã…. mas logo esse frio se dispersou e já perto de Juazeirinho começamos a sentir bastante calor. Era o Sertão Nordestino se fazendo presente.

E, de fato, dali pra frente só vimos paisagens típicas de sertão. Vegetação e relevo característicos do árido e semi-árido brasileiro, muitas construções de pau-a-pique e taipa, cactos enormes à beira da estrada, tudo aquilo que estudamos nos livros da escola sobre a região seca do nordeste brasileiro estava ali, em nosso entorno.

Mas, ao contrário do que possa parecer, a paisagem que era emoldurada por nossas janelas à medida em que adentrávamos no sertão não era, nem de longe, uma visão triste ou sofrida. A fotografia da viagem era algo admirável.  Uma pena que tínhamos que chegar em Maceió para encontrar nossos amigos senão certamente teríamos parado para passar uns dias por aquela região para explorar esse lado do Brasil.

Saímos da Paraíba e cruzarmos a fronteira de Pernambuco. Apesar de ser outro estado a paisagem continuava a mesma.  Somente após percorrermos cerca de uns 180km é que a paisagem começava a mudar. Perto da fronteira com Alagoas começamos a ver montanhas cobertas por campos verdejantes, rebanhos e plantações; a aridez dava lugar a campos férteis e a área rural passou a ser menos árida. Ao cruzarmos a fronteira e adentrarmos em Alagoas ficamos impressionados com a quantidade de canaviais que acompanhavam a estrada. Eles cobriam todo o entorno da estrada e por quer que olhássemos somente víamos o verde colorido da cana-de-açúcar.

Fomos acompanhados por este verde intenso até quase Maceió, onde então nos demos conta que estávamos entrando em uma cidade grande, com trânsito, desordem, lixo, construções amontoadas e pobreza. Foi triste perceber que o pseudo-desenvolvimento das grandes cidades importa, quase que como regra geral, na degradação das condições do ser humano. Definitivamente não era uma visão agradável.

Mas enfim, já estávamos perto do fim de nossa viagem e já chegando em Marechal Deodoro, onde ficaríamos ao longo da semana no camping Trilha do Mar, na praia do Francês, ligamos para o Diego e combinamos o local onde nos encontraríamos.

A Cassandra, amiga da Samira, até então nada sabia sobre nossa visita a eles em Alagoas e por isso pedimos ao Diego para não falar nada a ela.  Ao chegarmos na praia fizemos a surpresa e ela, que imaginava estarmos a centenas de quilômetros, ficou totalmente boquiaberta ao ver que estávamos ali a apenas poucos metros de distância. Como já era de se esperar, as lágrimas de felicidade escorreram pelos olhos da Cassandra enquanto ela dava um longo abraço na Samira.

A estada em Alagoas será contada no próximo capítulo dessa história, mas esses 2 dias de viagem pelas estradas do interior nordestino foram marcantes e deixaram registradas em nossas mentes imagens fantásticas de uma beleza rústica e árida do nosso sertão. Ainda voltaremos ao interior do Nordeste para explorarmos um pouco mais essa região….

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