A Costa Verde e o Sertão

A Costa Verde e o Sertão

No último post narramos nossa aventura logística de cerca de mil quilômetros para cruzar quatro estados pelo sertão e chegar em Alagoas para encontrar nossos amigos, Diego e Cassandra.

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Eles estariam por lá uns dias por conta de compromissos profissionais e não imaginavam que nós faríamos tal loucura e foram pegos de surpresa por nossa decisão. O Diego na véspera de nossa partida do Ceará, porque precisávamos falar com ele para organizar a logística. Já a Cassandra de nada soube até o último segundo.

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Deixamos a agradabilíssima acolhida dos nossos anfitriões em Fortaleza, Daniel e Joyce, numa manhã de sexta-feira para chegarmos somente no sábado à tardinha em Marechal Deodoro, município vizinho à capital alagoana.

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O Diego e a Cassandra estavam passando o fim de tarde na praia do Francês e chegamos na barraca deles por trás para ela não desconfiar de nada.  Quando ela se virou, ficou alguns segundos sem reação olhando fixamente em nossa direção e se convencendo de que não era só uma ilusão. Quando a ficha caiu foi uma efusão de abraços e ficamos ali contando a história de nossa travessia pelo sertão.

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Como já era fim do dia e nós ainda não sabíamos onde seria nosso pouso, depois da calorosa recepção na praia, iniciamos a procura de um lugar para nos instalarmos. Pesquisando pela internet descobrimos dois campings na praia do Francês que ficavam muito perto da praia onde estávamos. Fomos primeiro ao Surfcamp Trilha do Mar e decidimos rapidamente ficar por lá mesmo.

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O camping é uma graça e muito bem cuidado pelo proprietário, Serginho, que é uma simpatia de pessoa.  Enquanto abríamos nossa barraca de teto e preparávamos nossas coisas, nossos amigos abriam umas latinhas de cerveja para continuarmos o papo iniciado na praia.

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Como o ambiente do camping era muito agradável e o Serginho possui uma pousada vizinha ao terreno, a Cassandra e o Diego resolveram transferir sua base de Maceió para lá.

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Fomos todos, então, para a pousada em que estavam hospedados para pegar as coisas e trazer para o novo endereço e no caminho de volta paramos no Kanoa, um dos quiosques da orla de Maceió para jantarmos e brindarmos ao encontro.

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Nos dias que se seguiram fizemos uma verdadeira maratona praiana.  Como nossos amigos ficariam poucos dias em Alagoas, percorrermos uma boa parte do litoral para conhecer, na companhia deles, algumas das praias desse estado tão pobre em termos econômicos mas tão rico em natureza.

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Sempre que o Diego se liberava de seus compromissos profissionais, pegávamos o carro que eles alugaram e saíamos a explorar o litoral.

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No primeiro dia fomos para o norte, até as praias de Sonho Verde e Ypioca. Na volta paramos na praia da Garça Torta e conhecemos o famoso Bar do Carlinhos.

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Trata-se de um delicioso pé-na-areia onde tomamos um caldinho de peixe e comemos umas empadinhas enquanto batíamos um papo com o Carlos Zarelli, quem atualmente toma conta do local após seu pai, criador do bar e também chamado Carlos, se aposentar.

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Ele é um surfista puro, de raíz e uma figura simpaticíssima. Logo que chegamos sentou-se para conversar conosco e ficamos ali trocando idéias sobre a nossa viagem, sobre as trips de surf que ele já havia feito pelo mundo e, também, sobre como a especulação imobiliária, o crescimento desordenado e o turismo de massa destruíram o encanto daquela cidade que era praticamente virgem até poucos anos atrás.

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No dia seguinte, pegamos a estrada de novo para o litoral norte mas, dessa vez, fomos bem mais longe para conhecer a famosa São Miguel dos Milagres.

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A estrada até lá é puro charme e ao chegarmos na praia ficamos impressionados com a vista; o céu estava completamente azul, o sol brilhava, e o verde dos coqueiros e da vegetação à beira-mar emolduravam aquele estonteante do mar de Milagres….  ah o mar de Milagres!!!!

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É impossível descrever aquela beleza toda em palavras. Só mesmo estando lá para se ter noção do quão bela é aquela praia paradisíaca.

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Estabelecidos à sombra de um dos coqueiros que avançam sobre a areia, desfrutamos daquela vista maravilhosa e nos deliciamos com os encantos da praia de Milagres.

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Ficamos o dia inteiro lá, jogando frescobol, caminhando pela areia, jogando conversa fora, cochilando… O Diego e a Cassandra ainda fizeram o passeio de barco para ver as piscinas naturais enquanto nós ficamos ali na praia só curtindo o visual.

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Naquele instante, enquanto contemplávamos a beleza e curtíamos a paz e a tranquilidade do local, nós combinamos que voltaríamos a São Miguel dos Milagres para passarmos alguns dias depois da partida do Diego e Cassandra.

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Para finalizar aquele dia perfeito fomos no Bodegas do Sertão. É um restaurante de comida típica nordestina em Maceió, onde nos empanturramos de macaxeira, arroz de leite, tapioca, queijo coalho, frutos do mar, cuscuz e tudo mais de delicioso que a cozinha regional pode oferecer.

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Os dias seguintes foram dedicados à exploração do litoral Sul, mais perto de onde estávamos. Conhecemos as praias de Barra de São Miguel, Gunga e, ainda, a própria praia do Francês.

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Aliás, diga-se de passagem, a praia do Francês é lindíssima e, talvez, uma das mais famosas de Alagoas. No entanto a falta de organização estraga o local.  O som alto, as barracas em excesso e os ambulantes gritando tornam a praia um paraíso para o turismo de massa mas um caos para quem busca tranquilidade….

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Nós, porém, conseguimos aproveitá-la do jeito que gostamos mais, já que do camping acessávamos a parte deserta da praia, que fica mais ao sul.  Esse acesso se dava por um caminho alternativo, uma curta trilha permeada por dunas e coqueiros.

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Bastávamos atravessar a rua do camping e percorrer uns 20metros para chegar à primeira duna.  Dali andávamos cerca de uns 200metros envoltos pelo verde dos coqueiros e da vegetação rasteira até à beira da praia, onde o mar era igualmente verde.

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A praia da Barra de São Miguel também é linda e muito bem preservada. Além dos coqueiros em sua orla, ela contém uma série de residências de alto luxo que, de certa forma, impossibilita a existência de comércio local e estrutura para banhistas. Por isso ela é muito pouco frequentada e fica bem tranquila, do jeito que gostamos.

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Já a praia do Gunga, apesar de menos urbana por estar mais afastada, oferece uma estrutura bem grande de estacionamento, restaurante, banheiros, passeios de buggy e quadriciclos, sendo bastante frequentada e um dos pontos do turismo de massa.  Apesar disso, por ser bastante extensa, há espaço suficiente para quem quiser curtir a parte ainda virgem da praia, onde obviamente preferimos ficar.

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Como se percebe, fizemos uma maratona praiana com nossos amigos ao longo dos poucos dias que ficamos juntos em Alagoas. Aliás, outra maratona que fizemos na companhia deles foi a de churrascos noturnos.

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Praticamente todos os finais de dias passamos no supermercado para comprarmos carnes e bebidas para o jantar.  A área do camping e o clima eram propícios a isso e enquanto a carne era assada vagarosamente na churrasqueira que o Serginho, dono do camping, construiu utilizando uma roda de fusca, nós quatro ficávamos degustando vinhos e cervejas e batíamos papos intermináveis.

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Numa dessas noites conhecemos um casal (ele de Curitiba e ela do México) que estavam com seus três filhos acampados no Trilha do Mar.  Eles foram morar há alguns anos na Chapada da Diamantina e, como esse local era um dos nossos futuros destinos, pegamos valiosas dicas que só nos animaram ainda mais a explorar esse local que é praticamente unanimidade entre todos os viajantes que conhecemos nessa fase da nossa viagem.

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Mas, como tudo que é bom dura pouco, a quinta-feira havia chegado e os intensos momentos na divertida companhia do Diego e da Cassandra infelizmente chegaram ao fim.  Eles retornariam à cinza e caótica São Paulo enquanto nós continuaríamos nosso giro pelo Brasil rumando para a parte norte do Nordeste.

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Fomos à praia do Francês para curtir o dia e conversar sobre nossos próximos passos em Alagoas.  Como tudo estaria cheio nos dias seguintes por conta do feriado de setembro, resolvemos ficar quietinhos ali no camping e partir para São Miguel dos Milagres só no fim do feriado, evitando os transtornos com trânsito e o possível caos na praia.

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Na manhã da partida fomos antes ao auto-elétrico para resolver o problema que havia dado nos faróis do Roots e fizemos também uma lavagem preventiva com vaselina no chassi para protegê-lo da maresia que iríamos encontrar nas próximas semanas viajando pelo litoral.  Essa dica havíamos pego com o Lucien, em Fortaleza.

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Ao chegarmos em Milagres nos estabelecemos no camping do CCB, de frente para a praia. O local estava cheio mas sabíamos que no dia seguinte ficaria tranquilo com a partida em massa devido ao fim do feriado.  Fomos recepcionados por um grupo de jipeiros de Recife que havia ido passar o feriado com as famílias em Milagres.

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Quando nos viram chegando e armando nossa barraca de teto nos convidaram para o churrasco que estavam fazendo. Ficamos com eles um pouco conversando sobre a viagem e pegamos mais dicas sobre locais interessantes no nordeste para visitar.

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O dia seguinte amanheceu com chuva e muita gente partindo do camping. O Fabricio, do grupo de jipeiros de Recife, veio gentilmente se despedir e nos mostrar sua Defender 90, a qual estava recém-reformada e realmente era uma preciosidade.

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Com o camping vazio, pudemos desfrutar praticamente sozinhos de toda a estrutura “pé-na-areia” oferecida pelo local e curtir muito São Miguel dos Milagres.

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Além da vista e da natureza belíssimas, nossa rotina ali foi deliciosa. Acordávamos bem cedo para ver o sol nascer no mar, fazíamos exercícios físicos, tomávamos um belo café da manhã, caminhávamos pela praia, quando o sol ficava forte voltávamos ao camping e ficávamos à sombra lendo nossos livros. No meio da tarde preparávamos nosso almoço e depois íamos dar um mergulho na praia ou pedalávamos pelas praias vizinhas.

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À noite sempre degustávamos uma garrafa de vinho branco e fazíamos uma salada ou outra comida bem leve, curtindo a lua que brilhava forte naquele céu imensamente estrelado.

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Foi uma estadia maravilhosa naquele pequeno paraíso na terra.  Vida simples e vida feliz.   O prazer de ter passado aqueles dias completamente rústicos em Milagres é indescritível. Para nós, sem dúvida um dos pontos altos da viagem.

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Mas, felizmente, a viagem tinha que continuar e de lá rumamos ainda mais para o norte de Alagoas, passando por algumas praias da região conhecida como Costa dos Corais.

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Depois de passarmos pelas praias da Laje e do Patacho, pegarmos uma balsa em Porto das Pedras e chegamos a Japaratinga.  O Carlinhos, lá da Garça Torta, já havia nos dado a dica sobre essa cidade e decidimos ficar por lá mesmo. A praia correspondeu às expectativas que criamos após recebermos tantos elogios e o local ainda preserva boa parte da tranquilidade de uma vila, com muitos pontos onde a natureza está quase intacta.

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Encontramos um restaurante bem simpático na beira da praia, o Cambôa, e almoçamos um peixe com um purê de banana que estavam bem saborosos. Ficamos lá curtindo o dia e fizemos amizade com o proprietário que após entender nosso tipo de viagem nos ofereceu a estrutura do restaurante para usarmos caso quiséssemos passar a noite por lá.

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Convite aceito, pegamos nossas bikes para explorar Japaratinga antes de nos estabelecermos. Depois de passearmos pela cidade, pedalamos pela rodovia até o começo da cidade vizinha, Maragogi, margeando o litoral belíssimo da região.  Voltamos ao Cambôa e encostamos nosso carro no estacionamento do restaurante, que era um piso de concreto sobre a areia e cercado pelos coqueiros que escondiam a praia.

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Decidimos não abrir a barraca de teto e dormimos dentro do carro com as janelas e porta traseira abertas.  Dormimos com vista para o mar e ouvindo o barulho das ondas e do vento que batia na copa dos coqueiros.

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Na manhã seguinte, depois de uma caminhada pela praia, curtirmos uma leitura à sombra na areia até resolvermos partir para conhecer a famosa Maragogi.

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Chegamos lá e, infelizmente, nos decepcionamos com a cidade. Achávamos que seria algo rústico e cheio de natureza mas encontramos apenas uma cidade caótica e lotada de ônibus, pousadas, buggys e restaurantes.  Uma cidade preparada para o turismo de massa, com todos os aspectos negativos associados.  Decidimos nem perder tempo e passamos direto pela cidade, cruzando a fronteira com o estado de Pernambuco, que ficava poucos quilômetros à frente.

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Já em Pernambuco seguimos adiante até o município de Tamandaré para chegarmos na praia dos Carneiros, que havia se tornado nosso objetivo do dia.

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Tentamos encontrar locais para nos estabelecermos mas acabamos optando por alugar um flat já que área de camping era inexistente e as áreas públicas perto da praia eram muito limitadas. Nessa parada de 4 dias na praia dos Carneiros pudemos organizar um pouco as coisas dentro do Roots e, também, curtir bastante a praia. Como era meio de semana ela estava bem vazia e praticamente a tínhamos só para nós.

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A praia dos Carneiros é bem longa e nesses dias caminhamos algumas vezes toda sua extensão.  Da pequena e bucólica igreja símbolo da praia dos Carneiros até os recifes à beira da praia na parte sul, o verde do mar e dos coqueiros fazem uma paisagem lindíssima e nós ficamos surpreendidos com a beleza do local.

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Na sequência fizemos uma curta parada em Porto de Galinhas.  Apesar de simpática, Porto é um local muito turístico. A vila principal parece ficava cheia sempre e o dia todo. Independente de ser dia útil ou fim de semana, aquele lugar parecia um formigueiro.

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Já Macaraípe é bem mais tranquilo e por isso acabamos curtindo mais essa parte da praia. Ela fica após um coqueiral bem extenso e geralmente é frequentada pelo pessoal do surf.

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Como havíamos marcado de nos encontrar em Recife na 5ª feira com nossos amigos João Felipe e Ana Paula, que nos hospedariam em sua casa, acabamos ficando em Porto de Galinhas apenas por dois dias.

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Em Recife, tivemos a oportunidade de passar quase uma semana inteira na agradável companhia deles e, com seu inestimável apoio, conhecemos com mais profundidade essa cidade tão histórica e tão interessante.

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A rotina na cidade grande sempre é um pouco mais complicada diante das limitações de locomoção e da correria do dia a dia mas em Recife tudo se encaixou muito bem. Ficamos seis dias aproveitando bastante os atrativos da cidade.

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Quando não foi possível ter a companhia de nossos anfitriões, já que os filhos estavam em plena semana de provas, fizemos diversos programas pela cidade. Pedalamos pela orla de Boa Viagem, visitamos o centro histórico no Recife antigo, conhecemos a incrível oficina do incrível Francisco Brennand, passamos um dia na charmosíssima e vizinha cidade de Olinda, fomos até ao cinema e, ainda, aproveitamos para fazer um check-up preventivo completo.

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Mas também nos divertimos bastante com o João Felipe e a Ana Paula.  Fomos a um evento social comemorativo da regata Recife-Fernando de Noronha, jantamos, fizemos um churrasco épico, que iniciou às 13horas e terminou só de madrugada após esgotarmos o estoque de vinho, assistimos as partidas do Botafogo num tradicional bar. Enfim, fizemos de tudo um pouco.

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Quando chegou o fim de semana do aniversário do Eduardo, resolvemos subir a serra e passar uns dias na interessantíssima cidade de Bonito, no interior de Pernambuco, onde a temperatura é bem mais amena e onde pudemos dar um descanso do litoral após algumas semanas seguidas de praia e sol forte.

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A cidade é um roteiro alternativo ao litoral e possui muitas trilhas e cachoeiras ao seu redor, além de ter uma forte inclinação para o turismo rural e de aventura. Lá foi possível pedalar bastante pelas subidas e decidas da região, visitar algumas cachoeiras, curtir o frio da noite tomando um bom vinho, além de curtir as belíssimas vistas do alto de suas montanhas, coladas ao planalto da Borborema.

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Antes de deixarmos Pernambuco voltamos a Recife novamente para mais um dia e mais uma noite deliciosa na companhia do João Felipe e Ana Paula, nossos maravilhosos anfitriões de quem nos despedimos com um belíssimo jantar japonês.

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De Recife partimos então para João Pessoa. O tempo de viagem entre as capitais de Pernambuco e Paraíba não passa de 2 horas e muito rapidamente chegamos ao nosso destino.

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Nosso planejamento era ficar na Ponta do Seixas, onde segundo a informação que tínhamos, havia um camping à beira da praia.  Mas ao chegarmos lá verificamos que ele havia fechado fazia algumas semanas.

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Como não conhecíamos bem o local e precisaríamos do carro para nos deslocar pelas praias da Paraíba, decidimos pegar um flat. O local escolhido foi Cabo Branco, um bairro muito agradável e muito bem localizado e onde podíamos fazer muitas coisas a pé ou de bike.

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Em pouquíssimos dias a Paraíba havia nos conquistado.  As praias do litoral sul como Tambaba, Coqueirinho, Tabatinga e do Amor são belíssimas, as cidades da Paraíba são extremamente limpas e o povo muito educado.  João Pessoa é um capital muito tranquila, com uma orla super convidativa aos turistas e aos próprios cidadãos e um centro histórico muito bem preservado e que vale a pena conhecer.

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Além disso tudo, o custo de vida é bastante reduzido comprado aos demais locais onde passamos.

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De tão agradável resolvemos, então, estender nossa estadia em João Pessoa e ao invés dos três dias iniciais acabamos ficando uma semana inteira. Enquanto estávamos na capital tínhamos como rotina ir à praia, ler nossos livros, cozinhar, pedalar pela orla ao fim de tarde, tomar um açaí e visitar as praias das cidades vizinhas e os locais turísticos.

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Há anos atrás uma tia da Samira havia dito que João Pessoa seria o local onde ela tinha mais vontade de morar fora de São Paulo. Agora, depois de termos passado esses dias e conhecido essa capital tão simpática, conseguimos entender exatamente o porque.

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Depois desse período na capital rumamos para o norte e paramos na cidade de Baia da Traição, quase na fronteira com o estado do Rio Grande do Norte. Lá ficamos instalados no Ibaté Camping, onde inicialmente passaríamos apenas o fim de semana.

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Mas a Paraíba voltou a nos surpreender com as belezas naturais e a simpatia de seu povo e acabamos ficando no Ibaté por 8 dias.

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O camping fica afastado do centro da cidade e está localizado dentro de uma área indígena, à beira de uma falésia e da praia. Além da beleza do local e do charme do camping, o Diogo e a Ester, donos do Ibaté, são pessoas maravilhosas e nos acolheram de uma forma muito simpática e carinhosa.

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Acabamos fazendo uma amizade com o casal que além de nos tratarem super bem foram extremamente gentis e tiraram um dia para fazer um passeio conosco e apresentar as belezas escondidas da Baia da Traição.

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Visitamos as aldeias indígenas e alguns de seus locais sagrados, fomos nascentes de rio, mergulhamos em lagoas no meio da mata, conhecemos a história do povo Potiguar e, o mais importante, fizemos uma nova amizade.

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Nesses 8 dias ficamos totalmente desconectados e completamente relaxados. Curtíamos a praia, deitávamos na rede, líamos nossos livros, cozinhávamos, ficávamos à toa embaixo das ocas do camping, batíamos papo com o Diogo e a Ester… uma noite fizemos um luau à beira de uma fogueira quando um dos amigos do Diogo apareceu por lá e ficou tocando violão….

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Foram dias inesquecíveis mas, como sempre dizemos, felizmente a viagem precisava continuar.

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E de lá seguimos para o interior, rumo ao sertão nordestino. Nosso destino eram as cidades de Cabaceiras e Araruna, ambas na Paraíba.

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Quando fizemos a travessia do Ceará para Alagoas, nós cruzamos o sertão e ficamos com muita vontade de parar e explorar essa região.  A fotografia do agreste brasileiro correndo por nossas janelas nos encantou e combinamos que na primeira oportunidade iríamos conhecer o interior nordestino.

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Foi difícil sair do delicioso litoral do nordeste mas tínhamos muita curiosidade pelo sertão e, então, partimos para essas cidades no interior da Paraíba.

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De Baia da Traição fizemos praticamente todo o caminho de volta a João Pessoa e aí seguimos a estrada na direção oeste, sentido Campina Grande.  O caminho foi lindo e a estrada era muito gostosa de se dirigir.

Fomos observando a transição da vegetação verde e viva para um cenário mais seco, com muitas montanhas de pedras e um ambiente mais bruto.  O cenário era bem diferente, mas igualmente encantador.  O árido e semi-árido tem sua beleza própria e confirmamos, mais uma vez, nosso encanto pelo estado da Paraíba também ao cruzar o seu interior.

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Chegamos em Cabaçeiras depois de 3horas de estrada. Estávamos no centro do chamado “Sertão do Cariri”, um verdadeiro deserto brasileiro. Para onde olhássemos, só víamos terra, cactos, pedra e poeira.  O sol era castigante e o calor bastante forte.  Ainda assim a conjunção de todos esses elementos formava um belíssimo cenário, digno de filmes hollywoodianos.

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Aliás, Cabaceiras é conhecida como a “Roliúde Nordestina”.  Diversos filmes já foram rodados nessa cidade justamente pelo cenário seco e típico do sertão. Além disso, boa parte do casario antigo e das construções do século XIX estão preservados e são as efetivas residências dos habitantes, o que dá um toque extremamente bucólico e charmoso para essa cidade.

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O povo de Cabaceiras, a exemplo do que encontramos no resto do estado, é extremamente gentil e hospitaleiro. Logo que chegamos paramos numa loja de artigos locais e fomos recepcionados pelo Zé de Cila, uma figura impar  que é cheia de histórias e que nos deu várias dicas sobre o que fazer na região e, inclusive, ofereceu a sua loja e casa para ficarmos.

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Apesar de usa simpatia, agradecemos o convite e decidimos ficar na pousada da D. Margarete, que ele mesmo indicou como outra opção.

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Sentimo-nos muito seguros lá e poderíamos até mesmo ficar em nossa barraca de teto na rua da cidade mas, como descobrimos que para fazer os passeios e conhecer os atrativos no entorno precisaríamos do carro para nos locomover, entendemos que não faria sentido armar de desarmar todo dia a barraca.

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Outra característica da cidade era a impressionante amplitude térmica. Apesar do calor escaldante do dia, à noite fazia frio e apesar de estarmos em pleno sertão, agreste, deserto brasileiro, nas noites que ficamos por lá usávamos sempre um cobertor à noite.

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Fomos conhecer o distrito de Ribeira, afastado da cidade e cerca de 20km “deserto” adentro. Lá, funciona um curtume coletivo onde diversos artesãos se organizaram sob a forma de cooperativa e produzem peças em couro de bode/cabra.

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Lá conhecemos todos os processos de tratamento do couro, desde a sua chegada das fazendas até a sua finalização nas mãos dos artesãos.  Ficamos impressionados com o volume de produção do curtume comparado ao tamanho da cidade. São mais de 15 mil peles por mês que são tratadas e distribuídas para o Brasil e outros países. Isso fora a parte que fica com os artesão para produzir as peças locais, como chapéus, sapatos, jaquetas, mochilas e tudo mais que se possa imaginar.

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No caminho de volta ficamos ainda mais mistificados com a beleza rústica daquele entorno árido. Era uma paisagem extremamente seca mas ao mesmo tempo muito poética.

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Éramos um nada no meio do deserto e pudemos ter essa exata noção quando fizemos algumas fotos e vídeos do drone.  A fronteira do horizonte havia se expandido muito lá do alto, mas mesmo assim, até onde a vista alcançasse só se via terra, pedra e cactos.

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Para explorarmos outro local interessante em Cabaceiras, fizemos algumas dezenas de quilômetros por estradas de terra na direção oposta, até chegarmos ao Lajedo do Pai Mateus.  Um local místico da região, onde vivia um curandeiro local, e onde rochas soltas sobrepostas sobre uma montanha de pedra formam uma paisagem impressionante.

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Do alto dessa formação rochosa tem-se a vista perfeita para entender exatamente o que é o chamado “Sertão do Cariri”.  Um guia local nos explicou diversas características da geografia e da fauna e flora típicas daquela região e depois que ele se foi ainda ficamos umas horas curtindo o visual até o maravilhoso pôr-do-sol que tivemos a honra de testemunhar.

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Já era noite quando deixamos o lajedo e, em que pese termos de enfrentar toda a estrada desértica no caminho de volta, toda a poeira que pegaríamos e cansados do sol castigante, saímos de lá e com um sentimento muito interessante.

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Parecia que estávamos com o peito estufado, cheios de alma, completos por dentro… não porque era um lugar cheio de belezas, mas a sensação que tínhamos era a de que somente foi possível conhecer aquele local graças à liberdade que conquistamos.

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A liberdade que tivemos de explorar com calma a região e descobrir locais maravilhosos fora da rota turística tradicional do nordeste era a prova de que a decisão que tomamos foi acertada e que valeu muito a pena abdicar do conforto da casa na cidade grande e sairmos para explorar o mundo.

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Enfim, Cabaceiras foi uma surpresa deliciosa em nosso roteiro e ficamos maravilhados. A simplicidade da vida, a calma e a receptividade de seus habitantes, a percepção que tivemos do tempo passando, a saborosíssima comida…. Nos despedimos com tristeza dessa cidade que parece florescer como uma rosa no meio do sertão e seguimos viagem.

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Fomos até Araruna, mais ao norte, mas ainda no interior da Paraíba. Foram 170km até praticamente chegarmos na fronteira com Rio Grande do Norte.

Nessa cidade, que fica na região das Serras da Confusão e Araruna, se encontra o Parque Estadual Pedra da Boca.  Trata-se de uma área de caatinga cercada por formações rochosas que tomam formas interessantes, uma, inclusive, que dá nome ao parque.

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Chegamos até essa cidade por indicação do Simon, um paraibano conhecemos no Ibaté camping, na Baía da Traição, e que havia dado excelentes referências sobre o local e o camping do Tico, onde ficamos por dois dias.

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O principal atrativo do parque eram as trilhas entre as montanhas, que podiam ser feitas em meio à vegetação ou escalando as formações rochosas para se ter a vista completa da região.

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Quando chegamos lá, no camping do Tico, havia um grupo militar do Rio Grande do Norte que estava cumprindo uma das etapas de seu curso de formação e chamou muito a nossa atenção.

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Quando já era noite e estávamos indo dormir, o comandante estava levando todos, completamente equipados, para uma pequena trilha de 10km na mata. Na manha seguinte, por volta das 6hs, enquanto tomávamos café da manhã, eles já passavam por nós a caminho de outra etapa do curso.  Sentimo-nos assistindo ao vivo o filme “Tropa de Elite” e ao mesmo tempo ciente de que apesar da não valorização dos militares do País, esses caras são verdadeiros guerreiros preparados para tudo.

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Mas, enfim, nosso dia de atividades começou cedo.  Antes das 7hs começamos com uma caminhada na trilha da Pedra da Caveira. Fomos até a gruta de Nossa Senhora de Fátima e, depois, fizemos a trilha e a escalada da Pedra da Boca.

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Além da sensação gostosa de explorar a natureza em meio a uma região de muita beleza, lá de cima tivemos uma bela visão de toda a área e percebemos quantos lugares lindos o Brasil possui e que são tão pouco conhecidos.

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Voltamos das trilhas já perto do horário do almoço e havíamos combinado que à tarde faríamos um passeio de bike pelas estradas de terra para explorar um pouco mais aquela região. Ocorre que o sol brilhou forte e o calor se tornou muito desagradável.

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Resolvemos antecipar nossa partida e saímos de Araruna com destino ao Rio Grande do Norte, na praia de Pipa, onde iríamos encontrar o Paulo e a Dani, do projeto “Minha Casa sobre Rodas”.  No nosso próximo relato, contaremos os detalhes de nossa visita a esses amigos gaúchos que adotaram o Rio Grande do Norte e os próximos passos de nosso giro pelo Brasil.

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